Estélio Feldman
Pouco depois de a Folha completar 21 anos de existência, em 1969 (o jornal nasceu, como tem sido vastamente difundido, em 1948), o caderno chamado ‘‘Folha Rural’’ foi lançado. Desde logo, isto pode suscitar uma pergunta: como é que um jornal nascido em plena região do café, uma terra que tinha a agricultura, principalmente, como esteio, levou 21 anos para apresentar um caderno específico para as coisas do campo? Embora pareça procedente, a indagação fica invalidada, porque durante os 21 anos anteriores e também nestes 30 anos subsequentes, a ‘‘Folha’’ jamais deixou de estar ligada às coisas e problemas da terra, fazendo da defesa do homem do campo, em todos os setores, uma de suas grandes bandeiras.
O surgimento da ‘‘Folha Rural’’, assim, representou não a correção de uma (inexistente) falha, mas a disposição de dar ao tema um espaço a mais, específico, o que era até natural diante das próprias transformações que vinham ocorrendo na estrutura agrícola do Paraná e do Brasil. Em 1969, o Norte do Paraná vivia uma grande transformação. A terra que havia sido ‘‘do caf钒 enveredava por novos rumos, premida pelas circunstâncias e pelas mudanças. A pecuária já se desenvolvia bem, depois de um período de luta contra os preconceitos que podem ser considerados naturais pelo próprio desenvolvimento histórico da região. Paralelamente, começava o ciclo da soja, na parceria com o trigo, dentro da idéia segundo a qual era lógico explorar-se aquilo que os chamados países desenvolvidos tinham como base.
Ao lado disso tudo, persistia o maior de todos os problemas: o Brasil, um país com indiscutível vocação agrícola, continuava a se negar a seguir este destino. Os governos privilegiavam outras atividades, relegando o campo, sempre, a uma situação de filho rejeitado. Todo o progresso que a agricultura propiciou ao Brasil; as divisas que, durante tempo enorme, só eram geradas pela produção agricola, tudo era posto de lado. O homem do campo era tratado como um pária, sua luta, seu trabalho, seu sacrifício eram desconsiderados. As poucas vozes que se levantavam em defesa da agricultura (entre as quais sempre se incluiu a deste jornal) enfrentavam os mesmos preconceitos de quantos insistiam na labuta agrícola.
A ‘‘Folha Rural’’ passou a ser, desde o inicio, uma voz a mais, um espaço específico para defesa e difusão do trabalho e da vida no campo. Com uma linha criteriosa e ousada, conseguiu em pouco tempo granjear respeito e admiração, pautando o trabalho sempre pela idéia simples de que era necessário dar ao homem do campo o apoio que lhe faltava para realizar o seu trabalho de vital importância para o Brasil e o mundo. Foram 30 anos de intensa dedicação que se reflete no reconhecimento de quantos estão envolvidos nesta luta. E, é agradável reconhecer, uma luta que tem tido frutos. Ainda parece distante o dia em que o Brasil vá perceber plenamente a importância do campo e a necessidade de lhe dar todo o apoio.
Mas as coisas têm mudado nestes 30 anos. Embora ainda não tenham atingido o ideal, a percepção sobre o papel que o Brasil, como potência agrícola, pode exercer no mundo no próximo século, está se tornando cada vez mais intensa. Um mundo com 6 bilhões de habitantes (isto é 6 bilhões de pessoas que querem e precisam comer) é o mercado mais fantástico que se possa imaginar. É o potencial que se abre e que pode proporcionar ao Brasil o grande salto a fim de deixar esta triste posição de subdesenvolvido para o papel de potência mundial.
Nestes 30 anos, a ‘‘Folha Rural’’ vem fazendo sua parte, na difusão, na defesa, na promoção do campo. Nos próximos vai continuar, fiel à sua linha e certa de estar realizando a missão maior do jornalismo, a de ser voz ativa na defesa dos que produzem para o presente e para o futuro.
O autor é editorialista da Folha de Londrina-Folha do Paraná.

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