A encefalopatia espongiforme dos bovinos, o mal da ‘‘vaca-louca’’, é uma enfermidade infecciosa, que produz degeneração no cérebro de forma lenta e progressiva, culminando sempre com a morte do animal infectado.
O forte desencadeamento da transmissão dessa doença veio através da alimentação dos bovinos, por rações formuladas com farinha animal, dizem os cientistas. Esse ingrediente foi proibido na França e agora nos outros países, como fonte protéica para alimentação dos bovinos. A farinha animal vem de carcaças rejeitadas para o consumo humano e que são processadas para o consumo animal ou dos próprios subprodutos como osso, carne, vísceras e sangue contaminados. Estudos estão sendo feitos para verificação da transmissão via placentária (de mãe para filho no útero).
A ‘‘síndrome da vaca-louca’’ é uma doença provocada pelos prions, uma partícula que não contém ácido nucléico; DNA ou mesmo RNA, são apenas moléculas de proteínas, mas que se multiplicam e infectam o sistema nervoso, principalmente o cérebro, formando lacunas nos tecidos, sendo o motivo do nome da doença ‘‘espongiforme’’ ou seja, em forma de esponja.
A doença levou a população européia inteira a entrar em pânico com a possibilidade de se infectar, já que vários casos na forma humana vêm sendo registrados em diversos países daquele continente e já é fato que a doença é transmitida para o homem através do consumo de carne infectada.
No final do ano passado, o Comitê de Veterinários da União Européia aprovou a ampliação de testes de detecção da doença para todos os animais considerados de risco. Os políticos de todos os países querem ampliar estes testes para todos os animais acima de 30 meses de idade, sendo ou não de área de risco, mesmo não apresentando os sintomas da doença. Porém, a decisão da defesa sanitária deixou definida que serão testados, nos primeiros 6 meses deste ano, mais de 500 mil cabeças de bovinos e os testes serão ampliados para 6 milhões de animais até 2002.
A idéia de incinerar a farinha animal é um grande pesadelo para as autoridades governamentais, pois são três milhões de toneladas produzidas todos os anos. Outra grande catástrofe seria a aprovação de sacrificar e incinerar todos os animais acima de 30 meses de idade, evitando assim a transmissão para outros animais e para o homem, além de causar prejuízo para criadores, frigoríficos, restaurantes e para o próprio governo.
Essas medidas de impacto foram tomadas após o surgimento gradativo de casos confirmados, principalmente na França e Inglaterra. Há casos também na Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha, em resumo, em toda Europa, com exceção da Finlândia e Suécia, onde os sintomas da doença ainda não foram detectados.
Com o consumo da carne sendo reduzido em 40% na França e de 10% a 30% em outros países, muitas redes especializadas em produtos oriundos da carne bovina colocam cartazes na frente de seus estabelecimentos com os seguintes dizeres: ‘‘Carne testada e imune a contaminação’’ ou ‘‘carne Argentina’’ e assim por diante. Isso devido à doença ser transmitida para o homem em sua variação humana, o mal de Creutzfeld - Jacob. Já foram confirmados 77 casos em toda a Europa desde 1995 e, segundo as últimas pesquisas, a tendência é que o número de casos aumente.
Todo o desencadeamento dessa doença trouxe um grande ‘‘benefício’’ aos países do outro lado do atlântico. Países como Brasil, que criam o boi verde, ou seja, animais que se alimentam de capim e transformam a fibra vegetal em proteína animal, devem ganhar novo conceito entre os consumidores europeus.
Sendo detentor do maior rebanho bovino mundial, com mais de 144 milhões de cabeças, o Brasil brilha aos olhos das grandes empresas exportadoras de carne bovina e seus derivados para a Europa, já que é fato o consumo de carnes saudáveis ou seja, livre da doença da vaca-louca como é o caso aqui no Brasil.
Segundo Luiz Carlos de Oliveira, secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, o Brasil está isento do risco de contrair o mal da vaca-louca. ‘‘Não existe risco de algum bovino entrar no Brasil com a doença. Desde 1980 o sistema de criação no nosso país não permite a disseminação no território nacional,’’ afirma.
Outra explanação importante vem do Ministro da Agricultura, Pratini de Moraes. No mês passado ele comentou que o Brasil ‘‘certamente irá incrementar as exportações de farelo de soja e de carnes ‘in natura’ para os países da União Européia.’’
Esta afirmação procede, pois os preços da soja reagiram no mês de dezembro e nesta quinzena de 2001. Houve também um aumento da demanda, com mais de 940 mil toneladas de soja em grão e 1,23 milhão de toneladas de farelo de soja no mês de dezembro passado.
Com certeza o Brasil está com a faca e o queijo na mão ou, melhor, com a soja e o gado no chão. O gado brasileiro tem entrada livre no Mercado Comum Europeu, quando se trata de qualidade e garantias sanitárias.
O autor é médico-veterinário, proprietário da Plan - Assessoria Agropecuária, de Londrina, e sócio-proprietário da Estação para Avaliação de Touros Jovens Limousin

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