Vitelo pantaneiro promete mais renda
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de agosto de 2001
Carolina Avansini<BR>De Londrina 
Melhorar a renda de pecuaristas do Pantanal Sul-Matogrossense sem causar agressões ao meio ambiente é o objetivo do projeto Vitelo Pantaneiro, desenvolvido pelo Instituto Parque do Pantanal (IPP). A iniciativa aposta na demanda do mercado por carnes diferenciadas, provenientes de animais criados em sistemas ecologicamente corretos, informou José Marques de Souza, engenheiro agrônomo da entidade.
Segundo ele, o vitelo pantaneiro difere do similar tradicional porque resulta de bezerros criados livremente, alimentados com leite e capim natural do pantanal. ''Eles mamam apenas na hora que querem, ao contrário dos vitelos criados presos'', disse. O resultado, afirma, são animais livres de estresse, o que garante uma carne mais saborosa, ''com gosto de natureza''.
Outro diferencial é a cor róseo-avermelhada do produto, obtida graças à inclusão do capim na alimentação. ''Não é uma carne esbranquiçada como a dos vitelos que apenas mamam'', informou.
Mais renda A pecuária pantaneira se caracteriza pelo sistema de cria, ou seja, produz bezerros para serem criados nas regiões planálticas, livres das inundações que acometem a planície do Pantanal em algumas épocas do ano. Como os produtores vendem os animais no início da cadeia produtiva, a atividade acaba rendendo pouco.
Souza acredita que a produção do vitelo pantaneiro agregará 30% de renda aos vencimentos dos pecuaristas da região. ''Eles comercializarão o produto final'', avaliou. Outra dificuldade identificada pelo instituto é a exigência de praticar a pecuária extremamente extensiva para não ocasionar desequilíbrio ambiental. ''Os pecuaristas pantaneiros têm consciência que causariam danos à natureza se intensificassem a produção'', ressaltou.
Enquanto produtores de outras regiões criam de uma a duas cabeças de gado por hectare (ha), na planície pantaneira cada animal necessita de cinco a seis hectares. ''Os pecuaristas enfrentam altos custos de produção, pois arcam com os mesmos gastos de produtores de outras regiões, mas acumulam a responsabilidade de preservarção ambiental'', opinou.
Características A Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande, é parceira do projeto e está analisando o vitelo pantaneiro para identificar suas principais características. De acordo com Souza, a entidade vai estudar os cortes, a idade de abate e o peso ideais para lançar o produto no mercado. ''A idade de abate deve ficar em torno de 10 meses, com rendimento de 90 quilos de carcaça, em média. A pesquisa vai confirmar esses dados.''
O pesquisador da Embrapa, Gelson Luís Dias Feijó, informou que um lote de 18 animais foi pesquisado inicialmente. A princípio, segundo ele, o produto tem maciez acentuada e sabor diferente da carne bovina tradicional, indicando que existe um mercado potencial grande para o produto. ''Principalmente no exterior, onde o poder aquisitivo é maior e há demanda por carne diferenciada, com apelo ecológico.''
Definições Feijó acredita que antes de colocar o vitelo no mercado, porém, é preciso homogeneizar o produto, pois a variação de peso e acabamento foi grande entre os animais. Também defende ser necessário utilizar um sistema apropriado de desossa, já que o rendimento cai quando o padrão brasileiro é usado. ''Uma solução é comercializar a carne com osso'', comentou.
Outro ponto levantado é a necessidade de definir a forma de preparo. ''A carne perde a suculência quando passa do ponto, pois o teor de gordura é baixo. Não faz sentido pedir carne de vitelo pantaneiro bem passada'', ressaltou o pesquisador.
Souza informou que a próxima etapa da pesquisa é um projeto piloto envolvendo 20 fazendas e 400 animais. Com a disponibilidade de uma população maior, os pesquisadores poderão definir melhor as características do produto. Outro plano é imprimir um selo de orgânico ao vitelo, o que agregaria mais valor ao preço de comercialização.


