Vilas Rurais nas mãos das mulheres
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sexta-feira, 12 de março de 2004
Célia Guerra <br>Reportagem Local 
Cuidar de filhos, panelas ou um tanque cheio de roupas sujas não são as únicas funções da mulher que vive na zona rural. Dados da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (Fetaep) indicam que no Estado existam cerca de 600 mil agricultoras (50% da população rural economicamente ativa).
Na zona rural, essa mão-de-obra se concentra especialmente nas pequenas propriedades, onde o sustento está intimamente ligado a uma diminuição no custo de manutenção da propriedade. Outro setor do trabalho agrícola onde a mulher tem se destacado são as Vilas Rurais. No município de Londrina, de acordo com a assitente social da Emater, Rosângela Arimateas Caldas, as mulheres são as principais gestoras dos 259 lotes das cinco vilas instaladas.
''Nos lotes voltados para a olericultura, cujos cuidados demandam mais gente, a mulher representa 50% da força de trabalho'', informa. Para Rosângela esse envolvimento faz parte dos costumes das pessoas oriundas da zona rural: ''o quintal é delas'', ilustra, referindo-se aos cuidados da mulher com as criações de porcos, galinhas e a horta.
Rosângela explica que o objetivo do programa Vila Rural não é fazer com que as famílias sobrevivam do que é produzido no lote, mas garantir uma melhor qualidade de vida aos trabalhadores. ''Nas vilas, eles têm uma boa casa, com saneamento básico, além da área para plantio de subsistência ou mesmo auxílio no orçamento familiar'', destaca. Apesar da área pequena (5.000m2), a técnica diz que a maioria dos vileiros está vivendo bem.
Como é o caso da trabalhadora rural Sônia Marcelina Pinho, 32 anos, uma dos 81 moradores da Vila, que fica entre os distritos de Irerê e São Luiz. Enquanto o marido trabalha como diarista em propriedades vizinhas, ela é responsável pelos cuidados do lote. Sônia produz, com o auxílio dos cinco filhos menores, arroz, feijão, maracujá, abóbora, mandioca, galinhas caipiras e uma horta - cultivada apenas quando o clima refresca.
A família planta ainda um pouco de milho e sorgo para complementar o sustento das nove cabeças de gado que garantem o leite das crianças. ''Plantamos para comer, mas quando sobra a gente sempre vende alguma coisa'', revela. Do leite produzido, pelo menos 15 litros/dia são vendidos a R$ 0,70/L. Sônia se emociona quando fala das melhorias na qualidade de vida da família e, enxugando as lágrimas, diz com orgulho: ''não tínhamos nada, agora, graças a Deus, temos um vida tranquila e com fartura''.
A história da vileira Neuci Aparecida Ribeiro, 34 anos, também não é diferente. Ela administra a propriedade com o auxílio da mãe, Alice, 67 anos. Este ano, devido a estiagem que atingiu a região, ela será uma das poucas moradoras da vila com uma produção para venda. Neuci está com 2,5 mil pés de mandioca plantados e espera começar a colheita em seis meses. Para garantir a venda, ela conta com o apoio de um produtor que já trabalha com a comercialização da raiz. ''Pretendo vender parte da produção em caixas com raízes ainda sujas, o restante devo descascar para venda em pacotes''.
Além da mandioca, Neuci já ganhou alguns ''trocos'' com o plantio de vassoura e alho, cultivados com o apoio de seu noivo. Mas, enquanto a renda não atende as necessidades da família - além da mãe ela tem uma filha com 11 anos - , Neuci trabalha dois dias da semana como diarista na cidade.
''Só pela casa que temos agora, já compensou ter vindo para cá'', garante agricultora Joana D'Arc Alves, 28 anos. Ela também investiu na diversificação da produção, e já ganha alguns trocados com maracujá, acerola, cheiro-verde, mamaõ, mandioca e jiló. Joana está plantando algumas mudas de banana e espera recursos do Paraná 12 Meses para investir na criação de coelhos. O lote é administrado com auxílio de uma irmã. Mas o sustento da família, com sete pessoas, ainda é garantido pelo salário do irmão que trabalha no Distrito.
Joana reclama que, apesar da diversificação que consegue manter na propriedade, a lucratividade ainda é baixa. ''Para a venda eu dependo de outra pessoa, que fica com a metade do lucro''. No início das atividades da vila, há dois anos, Joana tentou a mobilização e organização dos moradores. Ela aspirava pela criação de uma cooperativa, ou pelo menos de meios que facilitassem a comercialização da produção. Depois de enfrentar muita resistência, ''pelo pensamento individualista'', como presume, ela desistiu do trabalho. ''Toco sozinha o que é meu e vou aonde for preciso para vender o meu produto'', desafia.
A presença feminina chama atenção também na participação em órgãos representativos como em cooperativas. Em todo o Brasil, segundo dados da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), as mulheres ocupam 12% das posições de direção das cooperativas. Do total de brasileiros cooperados, 25% são mulheres e, entre os empregados de cooperativas, o contingente feminino chega a 40%.


