Vida de agricultor não é tão fácil como as pessoas da cidade acreditam que seja. A rotina no sítio consiste em trabalhar muito, estar sempre apreensivo com o clima e nunca tirar férias. Ao contrário das famílias da zona urbana, nós não podemos viajar para a praia no final do ano, pois o dinheiro não sobra e o tempo é insuficiente. A agricultura proporciona uma vida digna, o que significa ter comida na mesa e uma cama confortável para dormir. Mas, pelo menos para os pequenos, é quase impossível ter lucros.
Nossa atividade depende do clima e de variáveis de ‘‘fora da porteira’’, o que inclui as oscilações do mercado agrícola. Por isso, vivemos em situação de constante instabilidade. A esse quadro, somam-se todos os imprevistos normalmente enfrentados pelas famílias da zona urbana.
Em 1996, por exemplo, a safra foi boa e nós obtivemos um lucro considerável, que seria utilizado para construir uma nova casa. Meu filho mais velho, porém, sofreu um grave acidente no campo e precisou de um tratamento caro e extenso, que consumiu todas as economias da família. Depois que ele sarou, tivemos que recomeçar do zero.
Ano passado, quando a situação se estabilizou e nós planejávamos voltar a investir os lucros, veio a estiagem e a geada, que trouxeram prejuízos e mais uma vez adiaram alguns planos. Mas apesar desses contratempos, continuamos trabalhando, pois não podemos perder a esperança.
Considero a falta de capitalização do pequeno produtor rural como o maior problema enfrentado pelo setor. A pesquisa e as publicações especializadas sempre orientam a diversificar culturas, processar produtos e adotar postura empresarial, entre outras idéias para agregar valores à produção. Nós sabemos que essas soluções são adequadas para melhorar a renda da terra e tentamos aplicá-las na medida do possível. Mas infelizmente, não temos recursos para colocar nossos projetos em prática.
Além disso, acredito que a zona rural é muito desvalorizada pela população urbana. Muitos vizinhos da minha propriedade já sofreram discriminação na cidade, pelo simples fato de serem moradores da zona rural. Outro dia, no cabeleireiro, ouvi uma moça aconselhar uma amiga a não ir a uma festa num distrito, porque lá ‘‘só ia ter gente do sítio’’. Como se fosse vergonhoso frequentar o mesmo local que as pessoas da zona rural. Infelizmente, a maioria não sabe que é o pessoal ‘‘do sítio’’ que produz o alimento que consumimos diariamente.
Outro problema que identifico no meio rural é a discriminação das mulheres. Eu, por exemplo, sou sócia do meu marido na propriedade e trabalho tanto quanto ele. Porém, quando há reuniões de produtores, raramente me convidam. As mulheres são a base do sistema de produção e merecem ser mais valorizadas.
A autora é agricultura em Prado Ferreira, 53 km ao Norte de Londrina

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