Vestígios da época de ouro do café
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sexta-feira, 27 de junho de 1997
Luiz Taques 
Fotos: Dorico da SilvaConhecidas como colônias, vilas habitadas por trabalhadores rurais estão acabando no Paraná- Não há reposição de famílias. Nós não contratamos mais ninguém no lugar das que vão embora. O patrão manda derrubar as casas.
Quem conta isso é José Luiz da Costa, 44 anos, administrador da Fazenda Paraíso, localizada em Bela Vista do Paraíso (Norte do Paraná). Há 15 anos ele trabalha na propriedade. Muita coisa ele viu mudar nesse período.
- Tinha 900 mil covas de café, hoje tem 380 mil. Eram 80 famílias morando nas colônias, hoje são 14. Os planos do Governo e as leis trabalhistas apuravam o patrão. Só num ano havia perto de noventa ações na Justiça.
Antes da geada de 1975, que praticamente acabou com a cafeicultura no Estado, o Paraná tinha 1,5 bilhão de pés de café. A cafeicultura acena agora com nova expansão. Nos últimos dois anos, por exemplo, já foram plantados 70 milhões de mudas. Segundo o Governo do Estado, isso significa a recuperação de 17 mil empregos no campo.
Alfredo Soares e Genésia Germano vivem há 20 anos em fazenda de Bela Vista do Paraíso
ColôniasNa época de ouro do café, dezenas de famílias trabalhavam e criavam seus filhos na própria fazenda. Moravam em pequenas vilas, que logo foram batizadas de colônias. Atualmente, na Fazenda Paraíso, informa o administrador José Luiz da Costa, além das 14 famílias residentes, 85 pessoas estão trabalhando na colheita do café. São bóias-frias. Ganham em torno de R$ 8,00 por dia.
Na Fazenda Horizonte, também localizada em Bela Vista do Paraíso, das três colônias que existiam, apenas uma não teve as casas derrubadas e continua habitada. Alfredo Soares e Genésia Germano, ambos com 59 anos, viram os oito filhos nascerem e crescerem na fazenda. Tinha mais de 40 famílias por aqui, lembra Soares. Só a gente e outras oito famílias ainda estão por estas bandas, acrescenta a esposa.
No Paraná, Alfredo Soares chegou aos 11 anos, fugindo do pai, que batia com fé e coragem, de deixar marcas no corpo até hoje. Soares viajou na companhia de um amigo, Noraldino, que tempos depois retornou para a cidade natal, São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais. Genésia Soares também é mineira, de um lugar chamado por ela de Borda da Mata. Viúva, a mãe dela, Maria Benta, decidiu tentar a sorte com os sete filhos no Paraná.
A Igrejinha da colônia também já foi fechada. Faltam padre e fiéis para a missa dominicalGenésia Germano tinha 13 anos. Conheceu o pai dos seus oito filhos na colônia, onde o casal vive até hoje. Há quatro anos Genésia é aposentada, ganha um salário mínimo por mês. O dinheiro ajuda nas despesas da casa. O ordenado do marido é um pouquinho maior que o dela.
Não tem baileJoaquim Tomé, 47 anos, também conheceu aquela que seria a sua futura mulher, Marlene da Silva, 43 anos, na colônia onde cada um morava com os pais. Casaram-se no dia 4 de julho de 1970. Pais de cinco filhos e avós de cinco netos, Joaquim e Marlene continuam morando em colônia. Há anos na da Fazenda Figueira, que fica em Santa Mariana.
A Fazenda Figueira, de 1.100 hectares, tem 360 mil pés de café. É administrada por José Lino Zumstein. Ele fala que 15 famílias ainda moram na colônia da propriedade. O aluguel de cada casa (incluindo a conta da luz) é de R$15,00. Na época da colheita, muitas mulheres vão junto com os maridos para a lavoura, mas ganham pelo seu trabalho, salienta Zumstein. Na colheita do café, a fazenda emprega 130 bóias-frias.
Ninguém mais quer saber de morar na fazenda, assegura o administrador. É que não tem mais baile para o povo dançar e nem boteco para os homens beberem no final da tarde, explica José Lino Zumstein. Se a gente precisar de um socorro, a cidade tem, acredita Vicentina das Dores, 67 anos, cinco filhos, oito netos, um bisneto, moradora da colônia da Fazenda Figueira.
Em 1995, Juca, um dos seus oito filhos, teve o peito aberto pela Medicina, que lhe colocou três pontes de safena no coração. Juca está com 34 anos. Não pode mais trabalhar. Passa a maior parte do tempo assistindo televisão. É por motivos como este que das Doras costuma dizer: Por enquanto a gente vai ficando por aqui mesmo.
De uns tempos para cá, nem o padre aparece mais para rezar a missa de domingo nas colônias. Faltam fiéis.


