Vender ou deixar o boi no pasto
Perspectivas para aumento do preço do boi gordo, a curto prazo, não existem. Se todo mundo resolver vender ao mesmo tempo, com medo de inverno rigoroso e depreciação da qualidade do pasto, a cotação deverá cair ainda mais. A pergunta de muitos pecuaristas é: o que fazer? O zootecnista da Assessoria Pecuária, empresa de Londrina, Edgard Pitraroia, tem orientado, por exemplo, a venda escalonada dos animais para economizar o pasto para o gado magro que estará entrando nas pastagens a partir de julho.
A primeira coisa a analisar, segundo Pitraroia, é se há condição de manter o gado gordo na propriedade; se vale a pena investir em suplementação na espera de melhor cotação. Mesmo com uma hipotética perspectiva de aumento de 20%, por exemplo, no preço da arroba, segundo o zootecnista, não é aconselhável reter os animais.
Arquivo FolhaPecuarista controla mercado. Se ele vende tudo de uma vez, o preço da arroba cai. O escalonamento equilibra a cotaçãoVenda equilibradaMas é preciso escalonar essas vendas, volta a afirmar o zootecnista, para que o preço não caia muito. Ofertas excessivas de boi gordo em todo o Paraná e outros Estados, nas semanas anteriores, derrubaram o preço da arroba que vinha nos R$26,00 a R$26,50, para R$25,00. Na semana passada já foram pagos R$25,50. Mas teve gente que vendeu a R$24,00, com medo de geada e pastos queimados.
Hoje o mercado está nas mãos do pecuarista, afirma Pitraroia. Se ele aumenta a oferta, o preço baixa. Daí a importância de escalonar a venda para equilibrar o mercado. Infelizmente não é assim que acontece. Tem pecuarista que pensa individualmente. Na iminência de mais frio neste inverno, acaba inundando o mercado de bois e baixando com isso a cotação da arroba.
Fazendo as contas de quantos quilos de comida tem à disposição dos animais que estão em cima do pasto, numa relação de consumo e projeção até o final da safra, é possível escalonar o desfrute. Os pecuaristas que têm à disposição dos animais um pasto de qualidade razoável e o gado gordo, deverão analisar se o que existe em termos de alimentação dá para mantença e ir vendendo aos poucos.
Para os que têm um pasto ruim, na boca do inverno, com perspectiva de mais frio, o certo é vender. Não dá para arriscar deixar o gado perdendo peso no pasto e gastando o alimento dos bois magros que entrarão depois. Há também o risco desses animais, prontos, até perderem peso. O pecuarista deve ser mais matemático. Em muitos casos não vale a pena esperar por um aumento de R$0,50 a R$1,00 na cotação da arroba, que possa vir mais no final da safra.
Especulação acabouAo contrário de anos anteriores, quando a pecuária viveu de especulação, a nova tendência da atividade, segundo Pietraroia, é profissionalizar a propriedade. Hoje não se trabalha mais com venda de gado e aplicação no mercado financeiro. O pecuarista usa o dinheiro para repor os animais e o que sobra deve ser em parte reinvestido na propriedade. A lucratividade da pecuária depende dos rendimentos da produção de quilos de carne por hectare/ano.
Se o pecuarista segura 100 cabeças de boi gordo num pasto, por exemplo, comendo x quilos de comida (volumoso) por mais um tempo, estará prejudicando a manutenção de 300 a 400 garrotes que entrarão no lugar desses bois gordos no período da entressafra. As propriedades tecnificadas precisarão sempre ter 25% de gado terminado.
Preços melhoresPietraroia calcula que na entressafra os preços da arroba deverão ficar entre R$28,00 e R$26,00 para a arroba - vai depender do comportamento do inverno, que este ano deverá ser mais rigoroso -, com picos de até R$30,00, em momentos quando a economia é mais aquecida, como no período de recebimento de salários, o que aumenta o consumo de carne.
A pecuária passa por um momento onde há necessidade de tecnificação ao máximo da atividade. Por isso acredito que o número de confinamentos e semiconfinamentos deverá aumentar muito nos próximos anos. Mesmo com a descapitalização do pecuarista, Pietraroia tem aconselhado seus clientes ao invés de tirar o pé, acelerar. Sempre com orientação técnica sobre os investimentos a serem feitos na propriedade e estratégias para a tornar produtiva. O trabalho de recuperação de uma propriedade é feito a médio prazo, dura cerca de cinco anos.
Pouca diferençaHoje em dia o diferencial de preços na safra e entressafra foi muito reduzido. Já houve variação, por exemplo, de R$32,00 a R$38,00 pela arroba na entressafra e R$12,00 na safra. A tecnificação da pecuária e oferta constante de animais fizeram com que esse diferencial fosse reduzido, acredita o zootecnista. Antes um pecuarista vendia 100 bois e vivia seis meses e, hoje, quando repõe parte dos animais gordos que vende e sobra um pouco, já é um alívio.
Mesmo assim, Pitraroia acredita que a diferenciação de preços na safra e entressafra sempre vai existir. No período de entressafra, ainda há uma certa dificuldade na produção de animais gordos a pasto, em função do clima, que pode ou não afetar a oferta de volumoso. Mas é possível amenizar o problema a partir da tecnificação de produção de alimentos na propriedade e recuparação de pastos degradados. Além disso, programar oferta constante e escalonar a comercialização.
Claro que no período do confinamento sempre haverá preço melhor, mas o pecuarista não deve descuidar; deve fazer suplementação de inverno, período quando há queda no volume e qualidade do volumoso, porém quando a grande maioria das propriedades ainda usa somente o pasto. Eficiência quer dizer alimentação a custo reduzido, boa mão-de-obra, condição sanitária do rebanho e oferta constante de animais.Sem riscosNas propriedades onde o pasto é ruim, na boca do inverno, com perspectiva de mais frio, é aconselhável vender os animais prontos
Cláudia Barberato





