BM&F Venda futura e formação de preços Numa bolsa de mercadorias é possível comprar sem ter dinheiro e vender sem ter mercadoria DivulgaçãoA BM&F negocia, além de produtos agropecuários, ouro, índice de ações, taxas de juros, taxas de câmbio e títulos da dívida externa Cláudia Barberato De Londrina Outra característica deste mercado futuro é que menos de 2% das operações são liquidadas pela entrega efetiva do produto. Assim acontece na Bolsa de Chicago, nos Estados Unidos, um dos maiores centros comercializadores de produtos agrícolas do mundo, e na Bolsa de Mercadorias & Futuro, de São Paulo. O mercado futuro serve para fixar preço dos produtos através da negociação de contratos que são liquidados numa data futura. Ao comprar ou vender esses contratos nos pregões da Bolsa, as partes se comprometem a comprar (e pagar) ou vender (e entregar) a mercadoria negociada na data do vencimento do contrato. Mas, nesse jogo de compra e venda à procura de lucros, dificilmente uma mercadoria é entregue em produto. Até porque os volumes negociados, em alguns casos, ultrapassam a produção da commodity. Maiores negócios Na BM&F o maior volume de contratos negociados é para o café. Cada contrato equivale a 100 sacas de 60 kg do produto. Em 1999 foram negociados 317.722 mil contratos de café arábica, o que dá 31,7 milhões de sacas, enquanto a safra colhida somou pouco mais de 24 milhões de sacas. Para o boi gordo, o segundo maior número de contratos, em 1999, foram negociados 123.442 contratos, sendo cada contrato equivalente a 20 animais. O que é a BM&F A BM&F, fundada em 1986, é hoje um dos principais centros de negociação do Mercosul e está entre as quatro primeiras bolsas de commodities do mundo. No ano passado ela foi internacionalizada, com cotações em dólares para as mercadorias negociadas. No Brasil a BM&F organiza e regulamenta mercados de liquidação futura em que são negociadas as commodities, café, boi gordo, açúcar, soja, algodão e milho. São 130 corretoras de mercadorias associadas que intermediam as operações. Baixa adesão De acordo com o economista da BM&F, Oscar OsvaldoFrick, produtores e pecuaristas, junto com empresas agropecuárias, indústria e comerciantes são alguns dos principais usuários dos contratos agrícolas. Ele reconhece que, considerando o universo dos produtores agrícolas ou mesmo dos pecuaristas do Brasil, a porcentagem que opera o mercado futuro ainda é muito pequena. Uma pesquisa desenvolvida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba (SP), direcionada ao mercado de boi, mostrou que em torno de 84% dos pecuaristas não conheciam o mercado e muito poucos tinham operado. ‘‘A BM&F está ciente disso e tem trabalhado muito para esclarecer esse público e disseminar a cultura de mercados futuros ao longo do País. Sabe-se que o retorno é lento e que, a julgar pelo padrão internacional não se pode esperar um uso maciço de sua parte’’, afirma Frick. Além de produtores, empresas agropecuárias, frigoríficos, indústrias, comerciantes, existem alguns investidores pessoas física (são importantes no caso do boi gordo) e também investidores institucionais (como bancos e fundos de investimento) que realizam negócios na Bolsa. Preço fixado Segundo o economista, em geral o ideal é que os preços futuros sejam utilizados na base da comercialização do mercado físico o que, automaticamente abriria espaço para operações de futuros e de opções em bolsa. ‘‘Refiro-me, por exemplo, ao uso de contratos com preço a fixar, cuja precificação seja feita a partir das cotações da BM&F. O produtor que vende para a indústria com cláusula de preço a fixar em abril, caso achar conveniente, pode vender contratos para garantir um preço antes de contatar a indústria. Nos EUA, isso acontece com muita frequência, o que ajuda a explicar o alto volume de negócios registrados lá.’’ Volume crescente Em 1999 foram negociados 503,9 mil contratos agrícolas na BM&F. O número supera em 39% os 363,1 mil contratos negociados em 1998. O economista Oscar Frick garante que desde 1991 o mercado tem crescido à taxa média anual de 63,8% nesta década. Segundo ele, uma maneira de avaliar a dimensão da Bolsa é comparar o número de contratos negociados ‘‘com alguma grandeza do mercado físico’’. Como não se dispõe de informação do volume de negócios ocorridos no mercado físico, costuma-se, de acordo com Frick, usar o volume da produção física de uma determinada commodity para compará-la com o o giro dos negócios futuros. ‘‘O mercado de café apresenta uma alta porcentagem. Em 1998, o volume negociado na BM&F foi equivalente a pouco menos de 60% da safra daquele ano. Agora, em 1999, essa porcentagem subiu para 100%. Em 1999 foram negociados 317.722 contratos futuros (de 100 sacas de 60 kg cada) o que equivale a 31,7 milhões de sacas’’. E a produção ficou na casa dos 24 milhões de sacas. Em outros mercados a relação é bem menor e fica em torno de 1% no caso do milho, soja e algodão. Mais do que a produção Na Bolsa de Chicago, nos Estados Unidos, os volumes negociados são gigantescos e ultrapassam a produção do commodity negociado. ‘‘Tome-se o caso do contrato futuro de soja, que tem um volume de negócios anual equivalente a aproximadamente sete vezes a produção mundial dessa commodity. O número é assustador, mas o mercado futuro nada mais é do que um instrumento muito flexível que permite fazer (e desfazer quando conveniente ou necessário) seguros de preço sobre determinados produtos negociados em Bolsa.’’ Como usar A estratégia básica do produtor, segundo o economista da BM&F, é fixar preço para a comercialização de sua safra através da venda de contratos em bolsa. Os contratos são padronizados em quantidade, qualidade do produto, cotação, data de vencimento e procedimentos de liquidação por entrega no vencimento. Na operação em pregão não é necessário conhecer a contraparte. A Bolsa, nos seus registros, identifica para si comprador e vendedor, mas não comunica os nomes e dá garantias ao negócio. Toda diferença de preço observada entre o preço de um dia e o preço negociado na operação original vai dar lugar a um ajuste diário (liquidação das diferenças). Desta forma, explica Oscar Frick, a qualquer momento o produtor que vendeu contratos para um determinado vencimento futuro, porque considerou interessante fazer um seguro de preço, pode ‘‘cancelar’’ seu seguro de maneira muito ágil. Para isso, continua Frick, basta comprar contratos para o mesmo vencimento e pela mesma quantidade, realizando a diferença de preços e passando a reestudar sua estratégia (que poderá vir a representar voltar a abrir posição vendida no mercado futuro). ‘‘A contagem de todas essas operações faz com que o volume cresca ao ponto de superar o número da produção.’’