Varejo oprime produtores
Paulo Fernando de Souza AndradeA dinâmica das relações de produção e de troca se torna mais acirrada com a concentração dos mercados, ora observada no setor supermercadista do Paraná, vivenciado também no País, e ampliado pelo mundo afora com o fenômeno da internacionalização dos mercados.
Amparados pela ausência de organização do setor produtivo, notadamente no setor hortícola (frutas, verduras e legumes) e não se levando em consideração a característica biológica desta atividade agrícola, as grandes redes de varejo no segmento supermercadista, na avidez do ganho, oprimem entre outros, este elo do sistema de produção de alimentos.
É certo que qualquer atividade econômica pressupõe lucro, mas a lógica dessas redes transnacionais onde sua função seria vender espaços e não mercadorias, impõe regras até então não usuais para os produtos de hortifrutigranjeiros, e que poderão inviabilizar a atividade produtiva para os agricultores não preparados para as negociações.
As regras contratuais de fornecimento são massacrantes, comprimindo a renda de quem produz e dando a impressão ao consumidor que este adquire produtos baratos, alicerçado por um marketing agressivo, criando a necessidade de consumo através de promoções de hortifruti a preços vis. A livre concorrência é um dos pilares na formação dos preços ao consumidor e apesar da tendência da homogeneização do varejo em Curitiba, subliminarmente percebe-se a cartelização deste setor.
Assim, não foi em vão a realização da 112ª Reunião do Fórum Permanente da Concorrência promovido pela Assembléia Legislativa do Paraná e pelo Conselho Administrativo de Direito Econômico – Cade –, ocorrida nesta semana, resgatando a demanda gerida pelos produtores rurais em abril próximo passado, questionando as práticas de negociações abusivas em voga. Especificamente de um grupo, que na época adquiriu o controle acionário de uma grande rede local e impingia novas regras aos contratos com os fornecedores.
Desta forma, aguarda-se agora o parecer do Cade, para que as negociações entre os supermercadistas e fornecedores tornem-se mais transparentes e maleáveis, beneficiando todos os elos dessas cadeias produtivas e seus consumidores. Atente-se ao fato de que o estabelecimento de salvaguardas à produção local deva ser objeto de estudo para a sobrevivência dos agricultores paranaenses.
No entanto, reforça-se aos produtores rurais, principalmente os de hortifrutigranjeiros, a necessidade de se aglutinarem, quer seja em condomínios, associações, pequenas cooperativas, pois é chegado o momento: uni-vos!
O autor é engenheiro-agrônomo do Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento.