Vacas não gostam da mudança
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sexta-feira, 17 de outubro de 1997
Deuselindo Ramos Agência Estado 
Vaca não usa relógio, não conhece hora e por isso, o horário de verão em nada influencia. Certo? Errado. Na região de Guaxupé, sudoeste de Minas Gerais, as vacas estão sentindo muito a mudança do horário e, segundo profissionais da área, demorarão alguns dias para voltar ao normal. Parece absurdo, mas elas ficam impacientes, nervosas e com o comportamento todo mudado nos primeiros dias, de forma que até mesmo nós estranhamos, diz o retireiro Sérgio Roberto Nascimento, que trabalha num pequeno sítio perto de Muzambinho, (MG).
O fazendeiro José Carlos Baraldi Ribeiro, da Fazenda Bom Jardim dos Machados, de Guaxupé (MG), confirma a mudança do comportamento dos animais nestes primeiros dias do novo horário. Segundo ele, na sua propriedade estudou-se até mesmo a possibilidade de não respeitar a mudança, fazendo com que os funcionários atuassem no horário antigo.
Essa proposta nos pareceu razoável, mas nos deparamos com o problema das linhas de leite, que passam sempre no mesmo horário e, com isso, teríamos problemas na entrega do produto ao laticínio, explica. Como ele, outros fazendeiros da região acreditam que está havendo queda na produção nos primeiros dias.
O zootécnico Sérgio Luís Borja Farias, um dos proprietários de outra fazenda, também de nome Bom Jardim, é o responsável pela ordenha das 19 vacas da propriedade. Para ele o horário de trato, de ordenha e presença do retireiro no local influencia muito no condicionamento físico do animal. A vaca tem um mecanismo orgânico que chamamos de pressão intra-mamária, que ajuda na saída do leite no horário certo, explica. Se o leite for retirado em outro horário, o animal sente dores, pode produzir mais ou menos (neste caso de adiantamento do horário, é menos) e modificar totalmente o comportamento até adaptar-se à nova rotina. O técnico aconselha as pessoas que não dependem de funcionários ou do horário a ir mudando aos poucos, ou não mudar os horários de jeito nenhum.
Maior produtorNa Fazenda São José, do Grupo Olavo Barbosa, o maior produtor de leite do País, o veterinário Mauro Santos Ribeiro confirma a mudança de comportamento dos animais nos primeiros dias do horário de verão, mas diz que isso não chega a influenciar tanto na produção. Com 1.800 vacas em lactação, a Fazenda produz 38 mil litros de leite A por dia, sendo a maior produção do Brasil. O segundo colocado produz uma média de 24 mil litros/dia.
Mauro diz que, no caso da Fazenda São José, se o animal dá 24 litros por dia, acaba produzindo um litro por hora e, com isso, a mudança só influi em algumas ordenhas. Se fazemos uma ordenha mais cedo, recuperamos na seguinte. Ele diz ainda que vaca é um animal de hábitos e costumes, e que em poucos dias, ela já está adaptada, o que não chega a dar prejuízo em produção.
O veterinário alerta, entretanto, que este ano um outro problema preocupa mais os técnicos da fazenda. São as chuvas em dias quentes. O calor está muito forte e há aumento na umidade do ar. Com isso, as vacas ingerem menor quantidade de alimentos e produzem menos que a média normal. As vacas da Fazenda São José produzem uma média de 20 quilos de leite/dia, por animal.


