Vacas enlouquecem o bloco
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sábado, 27 de janeiro de 2001
Por Mario Osava Inter Press 
A soja e outros produtos agrícolas podem beneficiar as exportações do Mercosul, substituindo parte do envio de carne para a Europa, afetado pela doença das vacas loucas. A Argentina e o Brasil estão iniciando campanhas para convencer os europeus de que o seu gado está totalmente livre da enfermidade pelo fato de só se alimentar de pastagens e outros vegetais e nunca de complemento de origem animal.
O pânico provocado, na Europa, pela encefalopatia espongiforme bovina, enfermidade que pode ser adquirida pelo organismo humano, causando danos neurológicos irreversíveis ou a morte, fez cair verticalmente o consumo de carne de gado nesse continente.
Os países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) se vêm diretamente afetados como grandes exportadores de carne, mas estão tratando de reduzir ao mínimo as suas perdas, sob o argumento de que não há risco no produto proveniente de suas pastagens. Mesmo que essa campanha não tenha êxito, a situação favorece o Brasil, quanto a, pelo menos, três produtos. Suas exportações de frango e de porco cresceram explosivamente no ano passado e as de soja seguem a mesma tendência, obtendo um forte aumento de preços. Só a Grã-Bretanha aumentou as suas importações de frango em 50%, segundo a Associação Brasileira de Exportadores de Frango. Segundo maior exportador desse tipo de carne, apenas superado pelos Estados Unidos, o Brasil pôde elevar de 14% para 17% a sua participação no mercado internacional, como consequência da doença das vacas loucas, diz Claudio Martins, diretor da Abep.
Os preços, contudo, não foram favoráveis. As exportações totais cresceram 18% em volume, alcançando 907 mil toneladas, mas as divisas caíram para US$ 806 milhões, 8% menos que em 1999. A carne de porco teve um desempenho melhor, aumentando de 48% e 38% em volume e divisas, respectivamente, graças, principalmente, ao reinício das importações da Rússia. A escala, porém, é muito menor, limitando-se a 128 mil toneladas e US$ 172 milhões. Ficam com a soja as perspectivas mais promissoras. A proibição de farinha animal como alimento de gado em vários países europeus, especialmente na Alemanha, a partir de dezembro, provocou uma forte demanda pelo grão brasileiro e uma consequente alta de preços. A soja passa a ser, assim, o complemento alimentar do gado europeu, em substituição à farinha de ossos de animais mortos. E o Brasil obtém a condição de provedor preferencial por não utilizar sementes transgênicas, recusadas pelos europeus.
A Argentina e os Estados Unidos, outros dois grandes exportadores de farelo e soja, já têm mais da metade de sua produção baseada em sementes geneticamente modificadas. A doença das vacas loucas agravou, naturalmente, os temores sanitários em relação às inovações tecnológicas.
Para a carne de gado, na há solução à vista. Os países do Mercosul não conseguirão evitar uma grande queda de suas exportações, mesmo que o seu rebanho seja saudável, diz Pedro Camargo Neto, presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Pecuária. A tendência de redução do consumo será mundial, porque o medo se expande e exige tempo para dissipar-se. Autoridades sanitárias argentinas, por sua vez, começaram a retirar dos supermercados produtos europeus de origem vacum e recomendaram à população para que evite o seu consumo. O Brasil ainda corre o risco de a sua carne ficar sob suspeita. porque no dia 12 deste mês, foi diagnosticada uma enfermidade similar à das vacas loucas, o scrapie, em três ovelhas do município de Canoi, no interior do Paraná. Importados do Canadá e dos Estados Unidos, esses ovinos e mais 290 cabeças foram sacrificados na mesma propriedade, para evitar contágio.


