A colheita de uva de mesa do ano que vem será especial para o agricultor Oscar dos Santos, de Marialva (17 km a leste de Maringá). Atual parceiro do proprietário Lourival Andrade em uma parreira de 5,6 mil metros quadrados (cerca de meio hectare), ele vai colher, em 2002, a primeira safra em terras próprias, numa pequena chácara que comprou em sociedade com o filho. Os recursos para investir foram conseguidos graças ao trabalho na propriedade alheia.
Assim como Oscar, outros ex-parceiros de lavouras de uva do município alcançaram a posição de pequenos viticultores. Essa reforma agrária natural foi impulsionada pelas características da atividade, que permite bons rendimentos em pequenas áreas.
O agrônomo Werner Genta, presidente da Associação Norte Paranaense de Pesquisa em Fruticultura (Anpef), comentou que a uva tem permitido a socialização da renda da terra. Na cultura, 30% do dinheiro fica com o produtor, 30% a 35% é pago ao parceiro e 30% a 35% é utilizado para comprar insumos. No caso da soja, o produtor mantém 30%, mas os recursos restantes são investidos em insumos (40%) e manutenção de estrutura e equipamentos (20% a 30%). ''Esse dinheiro é enviado para outras regiões'', disse.
Renda Oscar dos Santos, ex-parceiro em propriedades de café, migrou para a uva há 13 anos e garante não ter se arrependido. Ganha uma renda anual de R$ 9 mil, valor que considera difícil de obter em outras atividades. ''Onde seria possível conseguir um ordenado desses?'', comentou.
Os desafios impostos pela viticultura também ampliaram o mercado para engenheiros agrônomos da região. Reunidos na Anpef, eles investem em pesquisa, procuram especialistas para solucionar dificuldades e levam tecnologia aos produtores.
Os números divulgados pelo agrônomo Werner Genta, evidenciam a importância da uva em Marialva. Atualmente, a fruta é cultivada por 750 produtores em uma área de apenas 1,5 mil hectares (ha). Com produtividade de 13,5 mil quilos/ha, a atividade gera renda anual de R$32 milhões e aproximadamente cinco mil empregos diretos.
A comparação com a soja revela a dimensão desses valores. Na região, são cultivados 26 mil hectares, com produtividade média de 50 sacas/ha, para obter os mesmos R$ 32 milhões. A desvantagem, segundo Werner, é que a lavoura oferece poucos empregos. ''Com a substituição de apenas 1,5 mil ha da soja na região, a uva possibilitou dobrar o rendimento agrícola do município'', afirmou.
História A uva chegou a Marialva em 1960, junto com imigrantes japoneses. O primeiro grande impulso à cultura aconteceu no início da década de 80, quando os produtores passaram a realizar duas podas anuais que resultam nas safras de dezembro e maio. A partir de 1987, a Emater, sob direção do engenheiro agrônomo José Odair Mazia, passou a divulgar a viticultura para produtores de soja e café, que na época enfrentavam forte crise. ''Foi uma forma de arrumar ocupação para os filhos dos agricultores e diminuir o êxodo rural'', comentou Mazia.
A experiência deu certo e a atividade cresceu. Com o desenvolvimento, vieram também os desafios inerentes à correta condução das lavouras, fato que abriu o mercado para engenheiros agrônomos. Individualmente, os profissionais passaram a estudar o tema, procurar informações e novas tecnologias capazes de garantir maior segurança aos produtores.
A força da união foi descoberta em 1996, quando os técnicos se juntaram para solucionar a causa da morte de muitas plantas em parreiras diferentes. Juntos, eles trouxeram para Marialva um pesquisador que descobriu o problema: uma virose decorrente da má adaptação da variedade plantada.
Anpef Com a experiência, eles perceberam que a união é o caminho mais rápido para a resolução de desafios tecnológicos. Fundaram, então, a Anpef, que nos dois primeiros anos se dedicava a promover discussões sobre tecnologia e trazer especialistas para Marialva.
De acordo com o presidente Werner Genta, o interesse em desenvolver pesquisas surgiu quando os profissionais descobriram que alguns problemas não tinham solução apontada pela ciência. A partir dessa constatação, fizeram contato com as universidades estaduais de Londrina (UEL), Maringá (UEM) e posteriormente com o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Apresentaram as dificuldades para alguns professores, ofereceram área para experiências e recursos para deslocamento até Marialva.
Novas tecnologias A iniciativa rendeu bons frutos. Os pesquisadores desenvolveram novas tecnologias que já estão sendo aplicadas pelos produtores (ver texto ao lado). Atualmente, a Anpef está realizando 12 ensaios e com recursos do Paraná 12 Meses, montou um programa de controle de doenças.
Genta contou que o objetivo da Associação é diminuir ao máximo os riscos oferecidos pela cultura, através do desenvolvimento de tecnologias. ''Há uma relação de confiança entre assistência técnica e produtores'', contou.
Ele acrescentou que em Marialva, existem agrônomos que sobrevivem apenas da prestação de serviços. ''É uma conquista, se considerarmos que o forte do mercado é a assistência técnica oficial, o trabalho atrelado ao crédito agrícola ou a venda de insumos.''

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