Uva reverte processo de êxodo rural
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sábado, 20 de dezembro de 2003
Célia Guerra<br>Reportagem Local 
A história agrícola de Rosário do Ivaí (145 km ao sul de Apucarana) não é inédita no cenário dos pequenos produtores: exôdo rural, pela falta de opção, e o desconhecimento de alternativas de diversificação. A diferença, talvez, está na eficiência e no empenho de lideranças em ''virar a página''. O município hoje, segundo dados da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Seab), é o maior produtor de uva niágara do Paraná.
Em 160 ha de cultivo, um grupo de 250 produtores é responsável hoje por 750 postos de trabalho e pela movimentação da economia da cidade. A expectativa de produção para a safra que está sendo colhida é de 1,8 milhão de quilos de uva niágara rosada. ''A mais doce do Estado'', garante o ex-presidente da Associaçãodos Produtores Hortifrutigranjeiros de Rosário do Ivaí (Apri), Oséias Leal da Rocha.
Rocha conta que foi a uva quem trouxe de volta muitas famílias que haviam tentado a sorte no estado de São Paulo. Como é o caso do produtor Jorge Donizete de Souza, na cultura há 10 anos. Souza deixou a propriedade de pouco mais de oito ha para se tornar caseiro em uma chácara em Jundiaí (SP), no início dos anos 90. Lá, onde ficou quatro anos, uma das atividades era cuidar de uma parreira com mil pés de uva niágara. ''Aprendi o manejo, vi que aqui em Rosário dava para tocar a cultura, então resolvi voltar e cuidar do que é meu''.
O parreiral de 20 mil pés distribuídos em quatro ha, é tocado por Rocha, a esposa Maria Regina e os três filhos adolescentes Carlos Alberto, 16, Antonio Carlos, 12, e Aline Regina, 10. ''No pico da colheita a gente contrata um ajudante''.
A uva, segundo o produtor, garante uma ''vida tranquila''. No pedaço de terra que sobra ele destina a outras culturas como o feijão e o milho.
A organização dos produtores, destaca Oséias Rocha, foi uma necessidade de comercialização. O trabalho de mobilização e conscientização dos produtores teve início em 1998, apoiado pela prefeitura, Emater e Sebrae. Ele lembra que mesmo com a associação se formando, em 2000 cerca de 40% da produção de uva se perdeu na roça pela falta de compradores. ''A cidade não era conhecida''.
Em 2002, a associação conseguiu com recursos do Programa Seab/Paraná 12 Meses um sistema de rádio transmissor em circuito fechado. ''Um projeto inédito no Estado'', frisa Rocha. O município foi dividido em nove comunidades rurais. Em cada uma delas há uma central de rádio e uma liderança se encarrega de cuidar da produção disponível para venda.
Da sede da associação, o gerente Eduardo Teixeira faz o levantamento e fecha os lotes de venda. ''Em trinta minutos fazemos um trabalho que antes levávamos um dia inteiro'', comemora.
A qualidade da uva produzida, como destacam, já ganhou o Estado e têm em Curitiba o principal ponto de venda, seguido por Porto Alegre (RS). A uva é negociada ainda nas regiões de Londrina, Maringá e Cascavel. ''Este ano estamos fechando negócio em Goiânia (GO) e Brasília (DF)'', informa Teixeira.
Rocha cita ainda que a organização da venda vem lhe livrando do calote dos maus compradores. O cadastro de cada cliente é aprovado após minuciosa pesquisa junto a instituições financeiras e outras empresas do setor. ''Temos um índice de 0% de inadimplência. Nossa preocupação agora é com a qualidade da produção''.
A Apri está integrada também ao Programa Hortiqualidade da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Seab, Ceasa e Ceagesp. Rocha destaca que os produtores já estão preparados para o novo sistema de embalagem e classificação em processo de implantação pelo programa. O sistema de rastreamento da produção também está sendo montado em conjunto com os técnicos da Emater. As caixa de uva já levam informações como o tipo, o nome e o número do produtor. ''Cada um responde por possíveis erros de classificação'', reforça Teixeira.


