Da Redação
Considerando o meio ambiente ‘‘um bem riquíssimo a ser preservado’’, a bióloga Neiva Tinti de Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estuda o controle biológico através dos fungos como alternativa ao uso de agrotóxicos, que ela considera ‘‘uma fonte enorme de poluição, prejudicial ao homem, aos animais e ao meio ambiente’’.
Devido à preocupação com o ambiente, pesquisadores de várias instituições têm procurado alternativas, não prejudiciais à natureza, para o controle de pragas. Segundo a Agência Brasil, órgão de notícias do Governo Federal, uma das opções no combate às pragas estudadas por Neiva são os fungos. Existem espécies deles, as entomopatogênicas, que atacam os insetos prejudiciais à lavoura, e outras que matam os fungos fitopatogênicos que competem com as culturas. Esse é o controle biológico, isto é, o uso de patógenos predadores ou parasitas capazes de diminuir o número de indivíduos de uma população inimiga, esclarece a agência.
Dentre as espécies entomopatogênicas estudadas pela bióloga da UFPE está o Metarhizium anisopliae, que controla a cigarrinha da cana-de-açúcar, espécie endêmica no Nordeste desde o final dos anos 60. O Rhizotocnia e o Fusarium oxysporum são espécies que atacam fungos fitopatogênicos. O Rhizotocnia ataca o local de contato da haste com o solo, causando a podridão das raízes e o tombamento da planta.
AplicaçãoA introdução dos fungos na lavoura é feita com auxílio de pulverizador. Deve-se tomar cuidados em relação à aplicação dos fungos, pois eles são sensíveis. ‘‘Alguns cuidados são essenciais, como não colocar os esporos à luz do sol, pois os raios ultravioletas matam esses seres. Além disso, a umidade deve estar alta’’, explica Neiva. Outro modo de aplicação é pela introdução do fungo no solo e na semente da planta danificada.
O fungo lançado penetra o inseto e se reproduz, matando o hospedeiro. Segundo Neiva, existe uma fase na qual o esporo é vulnerável, ‘‘quando cai sobre o inseto, ele ainda pode sofrer com as adversidades ambientais’’.
No caso de fungos que atacam fungos fitopatogênicos, o mecanismo de morte é a disputa. ‘‘Eles competem entre si pelos nutrientes do solo e matam, porque produzem antibióticos que inibem o crescimento dos patógenos’’, esclarece Neiva.
Um dos problemas enfrentados por pesquisadores interessados em controle biológico, de acordo com Neiva, é que em cada região ele se processa de maneira diversa, pois as mesmas espécies que matam pragas em um local, podem não fazê-lo em outra. Além disso, as pragas também variam de lugar para lugar. ‘‘No Sul, por exemplo, o Metarhyzium não funciona no combate à cigarrinha.
Uma das características que pode facilitar a mudança de comportamento dos agricultores em relação ao uso dos agrotóxicos é o preço mais baixo dos fungos. Embora o custo seja reduzido, Neiva acredita que ainda há resistência por parte dos produtores na troca do agrotóxico pelos fungos. Uma das estratégias que ela cita como forma de facilitar a mudança é a participação dos técnicos para esclarecer a importância e as vantagens do controle natural.
Além de selecionar linhagens para controle biológico, Neiva tenta obter a reprodução dos fungos mais eficientes, por meio de mutações com raios gama. As mutações alteram as características dos genes e podem produzir propriedades benéficas para o controle. Nesse caso eles passam a produzir os fungos modificados.
Outros fungosAinda segundo a Agência Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já produziu dois bioinseticidas a partir de exemplares isolados da bactéria Bacillus thuringiensis, eficiente no controle da lagarta-do-cartucho do milho (Spodoptera frugiperda).
Existe ainda o bioinseticida Spherico, que combate o mosquito urbano produzido à base do Bacillus sphaericus. Esse inseticida será estudado no controle do mosquito Aedes egypti, causador da dengue. O Bacillus thurigiensis é pesquisado também no controle de duas lagartas, a Plutella xylostella, conhecida como traça-das-crucíferas e a Anticarsia gemmatalis, ou lagarta-da-soja.
Outros testes são realizados com a espécie de fungo Paecilomysis fumosoroseus para controle da mosca-branca, praga que tem provocado grandes perdas em diversas culturas no País. O Dicyma pulvinata, é alvo de pesquisa contra o mal-das-folhas, provocado pelo agente patógeno Microcyclus ulei, que acarreta a redução do látex extraído da seringueira.
AgrotóxicosO consumo de agrotóxicos no Brasil aumentou 276,2% entre 1964 e 1991. As vendas ultrapassam os US$2 bilhões – o dobro do valor de 1990. A soja é a principal cultura de grãos do país, responsável pela metade do consumo de herbicidas, seguida da cana-de-açúcar e do milho. Apesar da posição unânime em favor do não uso de agrotóxico pelos agricultores, o consumo vem aumentando.
Um agravante observado é que, apesar desse crescimento, a incidência de pragas e doenças se manteve. Entre 1958 e 1976 as principais culturas nacionais passaram a conviver com 400 outras espécies de pragas. A problemática com os agrotóxicos não se resume ao seu uso. Existe ainda a preocupação com o destino das embalagens dos produtos e com o treinamento dos aplicadores, para que não haja intoxicação.
Recomenda-se a lavagem tríplice dos vasilhames. Anteriormente determinava-se que os frascos usados fossem enterrados profundamente. No Paraná implantou-se um programa de devolução dos frascos vazios às prefeituras ou postos do Governo (atendidos pela Emater).
A respeito de intoxicação por parte dos aplicadores, uma pesquisa do Instituto Agrícola de São Paulo (IEA) revelou que 57% dos aplicadores não recebem qualquer orientação. Os efeitos prejudiciais ocorrem porque as pessoas não seguem as recomendações básicas impressas na embalagem do produto. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que em 1993 aconteceram 6 mil casos de intoxicação por agrotóxicos. Essas informações foram obtidas do consórcio Museu Emílio Goeldi responsável pelo tema Agricultura Sustentável, da Agenda 21 Brasileira.

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