Uso da irrigação deve ser racionalizado
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sexta-feira, 20 de julho de 2001
Carolina Avansini De Londrina 
Mal habituados com a abundância de água em território nacional, a maioria dos agricultores brasileiros ainda não estão conscientes sobre a necessidade de racionalização do uso dos recursos hídricos, praticando, muitas vezes, uma irrigação excessiva do terreno. Os produtores querem ver o chão encharcado, comenta o agrônomo Eugênio da Silva Coelho, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas (BA). Ele informou que o excesso de um milímetro de irrigação equivale a 10 mil litros de água por hectare. O desperdício é grande.
A economia de água e energia elétrica nos sistemas de irrigação depende da utilização racional da tecnologia, o que significa respeitar todas as recomendações divulgadas pela pesquisa e pelos fabricantes. Segundo Coelho, a adesão às normas técnicas permite diminuir em 20% o consumo de energia e em 30%, no mínimo, o consumo de água.
Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) revelam que apenas 0,007% da água disponível no planeta é própria para consumo humano. Setenta por cento desse volume é utilizado pela agricultura, o que evidencia a necessidade dos agricultores estarem mais atentos para o problema.
Sistemas No Paraná, a irrigação é utilizada principalmente na fruticultura, olericultura e rizicultura (ver box). Nas hortas e pomares, os sistemas mais utilizados são aspersão e gotejamento. Nas lavouras de arroz, a técnica mais comum é a inundação. No cultivo de outros grãos, também é possível molhar o solo pelo sistema de pivot central.
Segundo o engenheiro agrônomo Luiz Marcos Feitosa, extensionista estadual da Emater, na área de recursos hídricos e meio ambiente, o sistema de micro-aspersão ou gotejamento é o mais econômico, pois utiliza 0,6 litro de água/segundo por hectare, enquanto a aspersão consome 0,8 litro.
O pivot central utiliza um litro de água/segundo por hectare (ha). Um equipamento com capacidade para 120 ha, por exemplo, necessita 3.548,555 metros cúbicos de água para irrigar culturas de feijão, milho cevada e trigo, com ciclo médio de 115 dias. O volume é suficiente para abastecer 59.143 habitantes que utilizem 60 litros de água diários. O sistema de inundação é o que exige mais disponibilidade de recursos, pois demanda dois litros de água por segundo, para cada hectare.
Feitosa também informou que o gotejamento é o método mais eficiente. Se bem conduzido, permite aproveitamento de 90% da água empregada, pois molha apenas as áreas localizadas, explicou. O custo de instalação da tecnologia varia de U$2,5 mil a U$3mil por ha.
No caso da aspersão, o índice de eficiência cai para 80%, com necessidade de dispor recursos na ordem de U$1,5 mil a U$2 mil por ha. A manutenção, em ambos os casos, demanda 10% do investimento, anualmente.
Com relação à inundação, o aproveitamento da água fornecida é baixo. Quando mal feita, a técnica permite eficiência de apenas 40%, analisou. Segundo ele, os canais devem ser impermeabilizados para evitar a infiltração. Também necessitam de nivelamento para permitir a distribuição uniforme da água.
ManejoSegundo Eugênio Coelho um erro comum no campo é não considerar que as necessidades de água mudam de acordo com a cultura. Irriga-se, da mesma maneira, lavouras que sofrem pelo estresse hídrico de forma diferenciada, explicou.
O ciclo de vida da planta também influencia na demanda de água. Conforme Feitosa, a umidade é mais necessária no período de floração do que no início ou no final do processo. Ele lembrou que as condições climáticas devem ser consideradas. No inverno, por exemplo, apesar do clima ser mais seco, as plantas consomem menos água, pois o índice de vapotranspiração (evaporação do solo e transpiração da planta) é menor, comentou.
Para estabelecer o volume de água necessário, é importante verificar a umidade do solo. Um dos métodos disponíveis é a medição da diferença entre o balanço hídrico e a água vapotranspirada. Outra possibilidade é utilizar o tensiômetro, que mede o índice de umidade direto no solo. Qualquer produtor que possua sistema de irrigação deve contar com equipamentos que verifiquem a umidade da terra.
EconomiaO extensionista da Emater afirmou que muitos produtores não realizam a aferição da quantidade de água e acabam gastando mais do que precisam. É importante realizar o controle adequado das irrigações para economizar, afirmou, lembrando que o fornecimento de pouca água também é prejudicial, pois atrapalha o desenvolvimento da lavoura e reduz o aproveitmento dos recursos investidos.
Em tempos de apagão, o desperdício de energia é outra situação preocupante. Por isso, ele recomenda redobrar a atenção com a otimização do uso dos equipamentos. Feitosa ensina que o sistema tem que ser dimensionado para as necessidades da propriedade. Uma bomba muito potente, por exemplo, não pode ser usada em uma área pequena, disse.
A bitola da tubulação tem que ser corretamente calibrada para evitar perda de energia. Os tubos, por sua vez, devem ser bem dimensionados para fornecer apenas a quantidade de água estabelecida pelo produtor. Muitas vezes, o responsável pela lavoura utiliza métodos empíricos para decidir como fará o sistema de irrigação, aumentando as chances de perdas.


