Usinas de cana devem mais do que arrecadaram
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sábado, 25 de outubro de 2014
Mônica Scaramuzzo<br>Agência Estado 
São Paulo - As usinas de açúcar e etanol do País devem encerrar a safra 2014/15 devendo 110% de seu faturamento, de acordo com dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica). A receita para o ciclo é estimada em cerca de R$ 70 bilhões. "As empresas vão fechar a safra devendo em torno de R$ 77 bilhões", disse Antonio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da Unica.
Altamente endividadas, como reflexo dos investimentos em expansão de novas unidades, sobretudo entre 2003 e 2008, quando o consumo de etanol no mercado interno foi impulsionado pelos carros flex, as usinas continuaram tomando dívida para renovação de seus canaviais e mecanização da colheita de cana, afirmaram especialistas do setor.
A crise começou a se agravar a partir de 2009, com forte entrada de grupos estrangeiros. Aliada à má gestão, o não reajuste dos preços da gasolina, que tirou a competitividade do etanol, afetou grande parte das usinas. Neste ano, a queda no preço do açúcar piorou a situação das empresas.
Levantamento feito pelo banco Itaú BBA mostra que na safra passada, 2013/14, a dívida líquida de 65 grupos, que responderam pela moagem de 428 milhões de toneladas de cana (72% do total), atingiu R$ 45 bilhões. Esse valor cresceu 15% sobre o ciclo anterior e deverá ser entre 8% e 10% maior nesta safra, calculou Alexandre Figliolino, diretor do banco. "A dívida do setor até a safra 2013/14 cresceu 19 vezes, se comparada com o ciclo 2002/03", disse.
Os dados do banco contemplam as usinas do Centro-Sul, com base em 65 grupos sobre os quais o Itaú BBA teve acesso aos dados. Além do Itaú, os bancos Bradesco, Santander, Banco do Brasil e BNDES estão entre os maiores credores das usinas.
Fim da safra
Segundo Antonio de Pádua Rodrigues, da Unica, há cerca de 375 usinas em operação este ano, sendo que 30 correm o risco de não voltar a moer no ano que vem por causa do alto endividamento. Quase 70 usinas pararam suas atividades desde 2008 e outras cerca de 70 estão em recuperação judicial.
Levantamento da Unica mostra que a colheita no Centro-Sul deve ficar entre 545 milhões e 550 milhões de toneladas, 40 milhões de toneladas a menos que o previsto inicialmente, em função da seca, sobretudo em São Paulo e Minas Gerais. O Nordeste deve colher entre 55 milhões e 60 milhões de toneladas. Já a consultoria Datagro prevê moagem de 550,2 milhões de toneladas de cana na safra 2014/15. Para o ciclo 2015/16, a estimativa fica entre 520 milhões e 560 milhões.
Até 30 de setembro, dez usinas tinham encerrado a moagem por falta de matéria-prima. No mesmo período de 2013, duas tinham encerrado os trabalhos.
"O setor enfrentará uma das piores entressafras da história, com a antecipação do fim da moagem e falta de produto para comercializar durante esse período", disse Alexandre Figliolino, do Itaú BBA.


