Usinas ameaçam parar produção
Uma das soluções para aumentar o consumo do combustível é a criação da frota verde, de veículos governamentais
As usinas estão com dificuldades em colocar o excedenteMarcos NegriniAs usinas do Paraná empregam mais de 74 mil trabalhadores, boa parte no campoAlgumas destilarias do Paraná ameaçam paralisar a produção ainda neste mês, caso as medidas anunciadas pelo Governo não tragam os resultados previstos. O Governo prometeu ampliar de 24% para 26% a adição de álcool à gasolina, eliminar o consumo do MTBE (aditivo que substitui o álcool na mistura à gasolina no Rio Grande do Sul), reduzir o IPI para táxis movidos a álcool e estudos para adicionar 3% de álcool ao óleo diesel. Apenas a substituição do MTBE pelo álcool iria garantir um consumo adicional de 1,3 bilhão de litros ao ano.
O setor sucroalcooleiro quer que o Governo cumpra também a proposta de criar a frota verde, feita antes do início da safra, que começou em abril. A frota verde é a substituição dos veículos oficiais por modelos movidos a álcool, dentro do prazo de renovação em cada órgão público. O que precisamos mesmo é de incentivos para a retomada da fabricação de veículos a álcool, afirma o presidente da Associação dos Produtores de Álcool e Açúcar do Paraná (Alcopar), Anísio Tormena. A frota nacional de carros a álcool é de 3,8 milhões de unidades, mas está sucateada e sofrendo uma redução em torno de 20% ao ano.
Pode ser tardeA usina de Tormena, a Cooperativa de Produtores de Cana de Paraíso do Norte (Coopcana), maior produtora de álcool do Estado, com capacidade para 110 milhões de litros ao ano, pode ser a primeira a paralisar a produção. A intenção é parar até o final de junho - a safra vai até dezembro. Segundo Tormena o Governo acenou com medidas que podem melhorar a situação, mas tarde demais. O setor passa pela pior crise da história, e parados não teremos mais prejuízos, garante.
O superintendente administrativo da Alcopar, José Adriano da Silva, diz que as usinas são obrigadas a paralisar a produção. As empresas iniciaram a safra com os estoques do ano passado nos tanques; não conseguem vender por causa dos preços e não têm mais onde colocar álcool, explica. Apenas no Centro-Sul o excedente é de 2,1 bilhões de litros. O Governo comprou 500 milhões de litros, que continuam armazenados nos reservatórios das usinas. Outro quadro grave é que as sobras não estão distribuídas. O excedente está nas mãos de algumas empresas, que se recusaram a vender pelos preços praticados no mercado, revela Silva.
Isolamento arriscadoO presidente da Alcopar garante ainda que as entidades e usineiros não ficaram parados, esperando que o Governo resolvesse a situação. A crise fortaleceu a união dos empresários, que no início do ano criaram duas empresas, a Brasil Álcool S.A e a Bolsa Brasileira de Álcool (BBA). A Brasil Álcool deveria regulamentar o mercado do combustível no País, enquanto a BBA atuaria na comercialização de 87% do produto diretamente junto às distribuidoras. Segundo Adriano Silva, a Brasil Álcool não conseguiu colocar todo excedente por causa da crise que as empresas atravessam. Mas estamos conseguindo entrar no mercado externo, revela.
A BBA, que desde o início de junho está centralizando a venda de álcool, negocia cerca de 900 milhões de litros ao mês, o que representa toda demanda nacional no período. A bolsa, segundo Adriano da Silva, envolve 230 usinas que fornecem para seis distribuidoras. Eles têm um sindicato forte e nós criamos uma entidade em defesa dos produtores, que vão lutar por preços compatíveis com o custo de produção, avisa. O problema, no entanto, é que 13% do álcool produzido vão ficar de fora do sistema criado pelas entidades. Alguns empresários preferem continuar trabalhando isoladamente, alheios aos problemas que afetam todos, o que é arriscado e lamentável, diz Tormena.
No Paraná a adesão foi total, inclusive das quatro usinas do Grupo Usaçucar, de Maringá, que não são filiadas à Alcopar. A entidade reúne 28 usinas no Estado, que geram 74 mil empregos diretos, produzem juntas 1,3 bilhões de litros e movimentam R$800 milhões. O setor cresceu em cima do Proálcool, que é um programa do Governo, lembra Adriano Silva. Ele observa que a cana tem um ciclo de pelo menos quatro anos de corte, e para desmontar o álcool combustível, o Governo deveria ter antecipado a itenção. Não podemos de uma hora para outra simplesmente parar de produzir.
Crise & preçosA crise do setor segundo ele começou em 1997, quando o governo acenou com a possibilidade de liberar os preços do produto. Na época o estoque era elevado e a fabricação de veículos movidos a álcool estava praticamente paralisada. Em 1998 o quadro se agravou e algumas usinas, para não falir, foram obrigadas a comercializar o álcool a preços sem remuneração. Na verdade houve uma liberação forçada, sem critérios, lembra Silva. Os valores praticados pelas empresas, de R$0,41 no período de tabelamento, caiu para até R$0,20 no ano passado.
Boa parte das usinas foram obrigadas a vender pela metado do preço que praticavam anteriormente, apesar dos custos de produção terem se mantido ou até aumentado no período. As empresas precisavam fazer caixa e não tinham alternativa a não ser comercializar o estoque, lembra. No ano passado a safra começou com os estoques de 97 nos tanques das destilarias, causando mais um transtorno às empresas. Quem não tinha onde estocar, vendeu no preço oferecido pelo mercado, lamenta Silva. Ele lembra ainda que, apesar dos valores terem caído para o produtor, continuaram subindo na ponta final, com o consumidor também sendo prejudicado.





