Uberaba (MG) - O 5º Congresso Brasileiro de Raças Zebuínas reuniu mais de 900 pessoas esta semana em Uberaba (MG). Pecuaristas, técnicos e estudantes, priorizaram não só a discussão de manejos, mas novos rumos para os sistemas de produção. Uma das alternativas se revela numa produção de carne sustentável, menor dano ao meio ambiente e o bem estar animal e humano.
O evento, promovido pela Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), discutiu temas como Ambiência Animal, abordando benefícios reais que a mudança de atitudes no trato do gado pode trazer, não só para a produtividade nas fazendas, mas na qualidade do produto final: a carne.
Segundo o zootenista Mateus Paranhos, da Unesp de Jaboticabal (SP), programas de qualidade de carne devem ofertar produtos seguros e nutritivos e também ter compromissos com a produção sustentável, promoção do bem-estar humano e animal, assegurando satisfação do consumidor e renda ao produtor, sem causar danos ao ambiente.
De acordo com o zootecnista, compradores mundiais de carne não estão mais credenciando frigoríficos em que se comprova mau trato no pré-abate dos animais ou em outras fases da vida. A exigência, segundo ele, parte do próprio consumidor e o pecuarista, como participante deste elo, também deverá voltar-se para um tratamento mais humano em seus sistemas de produção.
O superintendente técnico da ABCZ, Luiz Josahkian, um dos coordenadores do evento, garante que no Brasil instituições e centros de pesquisa têm procurado gerar informações sobre o assunto. Segundo o técnico, além de ser uma exigência cada vez mais crescente para a exportação de carne a mudança pode ser bem lucrativa para o pecuarista.
Josahkian afirma que uma otimização no manejo pode representar ganho de até 30% na produção e um aumento 50% nas atuais taxas de abate do País, passando de 20 milhões de cabeças/ano para 30 milhões.
O pecuarista, afirma o técnico, ao considerar o bem estar do animal, melhorando manejo, alimentação, entre outros itens, especialmente na idade entre a desmama e o sobreano, consideradas fases de gargalo na pecuária atual, pode ganhar um ano no peso de abate. ''Metade dos animais que hoje demoram um ano a mais para atingir peso de abate, se fossem bem tratados e alimentados corretamente logo após a desmama, poderia chegar ao abate mais cedo.''
Josakian garante ainda que um dos objetivos de congressos como esse é despertar nos pecuaristas a importância de alterar os atuais sistemas de produção, buscando reduzir custos e aumentar eficiência; de olho no mercado externo e também no consumidor brasileiro.
A preocupação de tratar bem todo o rebanho bovino, para facilitar o trabalho dos funcionários na lida com o rebanho sempre foi a tônica do pecuarista mineiro Eduardo Penteado Cardoso, também presente no congresso. Cardoso faz seleção de animais não só pela adaptação ao ambiente, fertilidade, aptidão econômica e padrão racial, mas também por temperamento. Segundo ele, animais mais mansos facilitam todo o manejo na fazenda.
O benefício de tratar bem os animais, assegura o pecuarista, é nítido. ''Temos economia no manuseio no curral, nos pastos, ganho de tempo e mão-de-obra e, além disso, segurança dos funcionários. Há também menor número de acidentes, contusões, danos, hematomas, entre outros problemas que podem afetar o rendimento e a qualidade da carne.''
O pecuarista acredita, mesmo sem comprovação científica, que existe boa chance de haver maior ganho de peso nos animais mais mansos, já que bem tratados, têm menos estresse. A influência chega aos filhos, garante Cardoso. ''Os clientes que compram tourinhos na fazenda confirmam que na primeira geração os animais nascem mais mansos.''
Para Cardoso os animais não devem seguir os comandos dos funcionários por medo. ''Hoje é possível tratar com carinho e os animais respondem muito bem a isso. Na minha propriedade não tem 'arma' para intimidar os animais. Não gosto de gritos, principalmente se o gado estiver fazendo o que a gente quer, não tem porque bater e machucar os animais. É cinérgico. O gado reage e leva o responsável pelo trato do rebanho também a trabalhar melhor.''
Eduardo Cardoso acredita que a nova geração que está iniciando no setor, demonstrada pela grande presença de estudantes de áreas de ciências agrárias no congresso, possa adotar o manejo mais humano na orientação dos projetos pecuários.
A jornalista viajou a Uberaba (MG) a convite da ABCZ.

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