O mercado internacional vai atender, no ano 2000, o consumo de animais abatidos mais cedo e com baixos teores de gordura. Ao que parece, no Século 21 a pecuária brasileira estará ‘‘correndo’’ atrás dos mesmos índices de produtividade que já estão sendo buscados hoje em dia para atender primeiro o mercado externo, que é mais remunerador, e a demanda interna, caso ela aumente.
Conseguir precocidade em índices zootécnicos do rebanho, do nascimento até o abate dos animais, tem sido a tendência dos últimos 10 anos, com avanços num grupo de propriedades especializadas e retrocesso ou estagnação na grande maioria das propriedades brasileiras.
Sem romantismoCriadores e técnicos especializados do setor de produção de carne encaram a pecuária do próximo século como científica, e não mais romântica. Espera-se conseguir animais para produção de rápido acabamento e não mais escolher raças por seu visual ou modismo.
Interessa conseguir animais rústicos, não tardios e, de preferência, de produção totalmente a pasto, para fugir de altos custos. Animais que produzam carne mais magra, na tendência de consumo de alimentos mais saudáveis, adotada em todo o mundo.
Barreiro trabalha na raça marchigiana, para achar tipo de animal enquadrado no que o mercado hoje pedeO resultado do trabalho dos
criadores, em busca deanimais próximos do ‘‘ideal’’ de produção, pode ser visto nas pistas de julgamentos da 39ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina - 33ª Nacional, 7ª Internacional, que termina amanhã no Parque de Exposições Ney Braga.
Baixos índicesO que se vê em pistas de julgamentos de exposições não é, no entanto, a realidade da pecuária de modo geral praticada no Brasil. Índices como desfrute do rebanho, idade de abate, intervalo entre partos, desmame precoce, entre outros, na média, precisam, e muito, serem mudados.
A idade de abate, por exemplo, foi reduzida de cinco para quatro anos, mas ainda está longe da tão sonhada precocidade, de matar bois prontos, com carne de qualidade, pelo menos, dos 22-24 meses até os 30 meses de idade. O abate precoce e até superprecoce, hoje, é tecnologia dominada em propriedades que formam um pequeno núcleo dentro da realidade brasileira, concentrando produtores que não representam a grande maioria no País.
Todo o setor de produção é unânime em afirmar que questões básicas como o problema da febre aftosa terão que, finalmente, serem resolvidas, em detrimento do avanço de todo o setor da cadeia produtiva. A doença ainda é responsável por muitos problemas no sistema de produção e impede o País de abrir novos mercados para a venda de carne.
Josoe de CarvalhoSantos afirma que venda de sêmen e produção de sintéticos revelam aumento de interesse pela raça aberdeen angusPrecocidade sexualPara chegar à precocidade de abate dos animais é necessário reduzir, neste caminho, outros índices do rebanho, começando pelo desenvolvimento das fêmeas mais cedo, para cobertura e produção de bezerros. Depois, reduzir o intervalo entre os partos, num percentual de 30% em média, a mais, do que se consegue hoje.
Atualmente o índice de taxa de prenhez é de 55%, quando o melhor seria conseguir 85%. Empresas agropecuárias conseguem até índices maiores, beirando os 90/100%, mas isto não é a realidade da maioria das propriedades brasileiras.
O termo precocidade, no caso das fêmeas, exige desenvolvimento estrutural mais cedo e precocidade sexual, encurtar a idade da puberdade e precocidade no acabamento de carcaça. Chegar pronta mais cedo ao abate, com manejo e genética superior. Existem rebanhos em que a fêmea começa sua vida sexual aos 14 meses, visando precocidade de todo o processo de produção da carne. Para isso o pecuarista tem que trabalhar na organização de estação de monta com intervalo correto e avaliações de desenvolvimento, através das DEPs (Diferenças Esperadas de Progênie).
Falta remunerarNa visão de técnicos do setor, o pecuarista que faz manejo correto do rebanho, usa genética evoluída, consegue carne de qualidade, mas se vê desanimado quando, no frigorífico, recebe a mesma coisa por uma carne de boi abatido aos cinco anos, proveniente de um rebanho sem aprimoramento e investimento em genética. ‘‘Não se pode mais trabalhar isoladamente. Há potencial sobrando, falta vontade política’’, afirma o veterinário do setor de registro genealógico da Sociedade Rural do Paraná, Ireno Cassemiro da Costa.
Fernando Barreiro, gerente de pecuária de seleção da raça marchigiana, do grupo Eros Felipe, criada na Fazenda Paraíso, em Apucarana, concorda e vai mais além: ‘‘O trabalho do selecionador acaba na porta da indústria. Dentro da cadeia produtiva o outro lado (indústria) não quer andar.’’
Não adianta ter muita pressa, continua Barreiro, para reduzir os índices e conseguir precocidade no processo de produção da carne. ‘‘Quando se chega para vender no frigorífico, a indústria não quer pagar o preço certo. Os pecuaristas já fazem seleção há muito tempo e o frigorífico alega que não paga porque não existe mercado remunerador para a carne diferenciada’’.
Produtividade maiorO Grupo Eros Felipe, segundo Barreiro, como o mercado não está preparado para remunerar corretamente o boi morto, trabalha para alcançar indíces de produtividade cada vez maiores. Hoje conseguem 90-95% de taxa de prenhez. Trabalham com um touro para cobrir 45-50 vacas, o que vai refletir no número de quilos de carne produzido por hectare e maior número de bezerros nascidos.
Bezerros de alta qualidade vão engordar e produzir animais para corte. No Mato Grosso do Sul, o Grupo faz a cria, recria e engorda; e no Paraná, criação seletiva, com o objetivo de achar tipo de animal e enquadrar a produção dentro do que o mercado quer hoje.
Ele concorda que falta vontade política e pressão do setor por uma exigência da tipificação de carcaça, que deverá ser exigência do Ministério da Agricultura a partir de janeiro do ano que vem. ‘‘Outros Estados como Tocantins, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso pagam pelo novilho precoce.’’
O objetivo é chegar a um animal acabado abaixo dos dois anos de idade com índice acima de três milímetros de gordura na carcaça, exigência mínima da indústria para que a carne não escureça ou fique com aspecto ruim quando chegar ao consumidor.
Mercado promissor De olho no interesse pela raça para o cruzamento, os criadores da Associação Brasileira de Aberdeen Angus, segundo o técnico da entidade, Pedro Adair Fagundes dos Santos, deverão trabalhar o marketing da raça nos próximos anos. ‘‘A venda de sêmen, em 98, somou mais de 800 mil doses, batendo o nelore, temos que aproveitar o momento’’, afirma.
Os criadores, segundo Santos, têm conseguido bons índices de idade de cobertura das fêmeas, por exemplo, emprenhadas aos 14/15 meses para criar aos 18 meses. O abate dos novilhos está sendo feito aos 20/22 meses, com quatro ou cinco arrobas a mais nos cruzamentos com o zebu. Ele ressalta a produção de carne com bom entremeio de gordura, proveniente do cruzamento do aberdeen com o nelore. ‘‘É preciso divulgar estes resultados.’’
Novos animaisDe acordo com Santos, a tendência da pecuária nos próximos anos deverá partir para a produção de bois sintéticos ou compostos. ‘‘Para isso é preciso ter um programa genético consistente’’, afirma Leonardo Campos, técnico da Associação Nacional de Criadores e coordenador do Promebo, um programa gaúcho de avaliação genética de rebanhos criados no Rio Grande do Sul que reúne 150 criadores.
Nas condições extensivas, nos pastos do Brasil Central, segundo Campos, será preciso criar animais de rápido acabamento de carcaça, que acelerem o ciclo de produção de carne a pasto.
Campos, do Promebo, acredita que o setor pecuário precisa ampliar os programas de avaliação genética das raças; ‘‘para que os pecuaristas possam explorar melhor recursos das diferentes raças. A pecuária comercial se baseia em cruzamentos, raças sintéticas ou compostas, para conseguir melhor a heterose. E os programas de avaliação é que ditarão os melhores acasalamentos.’’ReflexoPistas de julgamento refletem o que criadores estão buscando na produção de animais: precocidade e qualidade de carneCláudia Barberato

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