Independentemente das oscilações de mercado, o que se percebe é que nos últimos anos o governo tem interferido de forma ineficiente e tardia com ações que envolvem a cultura do trigo. Em meio à janela de plantio, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou os valores para o reajuste do preço mínimo da cultura para a safra 2016/17 apenas no dia 11 de maio, um atraso de quatro meses.
Na região Sul, que abrange o Paraná, o valor passou de R$ 34,98 para R$ 38,65 a saca de 60 quilos, aumento de 10,5%, o que, segundo a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), não cobre os custos de produção. De acordo com o levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento (Seab), o custo de produção variável da commodity no Estado passou de R$ 34,79/saca na safra passada para R$ 40,86/saca na atual, incremento de 17%. Só o adubo, por exemplo, subiu em média 24%, enquanto os herbicidas, 13%.
De acordo com o economista do Departamento Técnico e Econômico (DTE) da Faep Pedro Loyola, a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) é uma ferramenta que deveria refletir os custos de produção, mas isso não acontece. "Não lembramos a última vez em que o governo atuou oportunamente (com essa ferramenta). Há dois anos, precisávamos da compra 70 mil toneladas de feijão para apoio à comercialização. O governo adquiriu 20 mil toneladas para todo o Brasil, fora de época, e os produtores ficaram no prejuízo", relembra ele.
Para Loyola, sem essa política de estímulo eficiente, a área para a aposta na cultura sempre vai permanecer estável, assim como a produção. "Vamos oscilar entre 750 mil hectares e 1,3 milhão de hectares, com o produtor sempre calculando o custo-benefício em relação ao milho safrinha e até com o próprio feijão, em algumas regiões."
Além do aporte abaixo dos custos de produção, o governo federal divulga os valores com muitos meses de atraso. A Faep lembra que o triticultor paranaense faz o planejamento da safra de inverno entre novembro e janeiro, com a concentração de crédito rural de janeiro a abril. Vale dizer que o documento com as propostas da entidade foi entregue ao Mapa no dia 13 de outubro do ano passado, mas nenhum dos pontos foi discutido com o setor produtivo. "Todo ano estamos batendo nas mesmas teclas", lembra o economista.
Neste novo momento, com a saída da ministra da Agricultura Kátia Abreu e o ingresso de Blairo Maggi ao posto, a expectativa da entidade paranaense é uma melhor sinergia para discutir os assuntos do setor produtivo. "Ele demonstra portas abertas, tanto que já nos recebeu e também a CNA (Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil). A nossa expectativa é montar políticas agrícolas de longo prazo. Precisamos dessa visão e o governo tem papel importante nisso, além claro, de ajustes anuais efetivos", comenta Loyola.
Com estratégias mais voltadas ao longo prazo, o economista acredita que a PGPM perca importância no decorrer dos próximos anos. "É preciso criar políticas que reforcem mecanismos de gestão de riscos, como o seguro de faturamento, ou seja, estratégias para que o produtor se antecipe ao problema no mercado futuro, como é feito nos Estados Unidos."

mockup