Naquela noite de outubro de 1971 o sono custava a chegar ao agricultor Herbert Bartz. O céu carregado indicava que viria chuva. Ele não se segurou. O relógio apontava quase meia-noite quando calçou as botas de borracha e acendeu a lamparina de querosene para dar uma volta pela lavoura da sua fazenda Rhenânia, em Rolândia.
''Eu já estava a um quilômetro de casa quando um raio iluminou o céu, seguido de um estrondo. Não choveu, despencou água, de repente. Foram 90 mm em uma hora. Geralmente o agricultor está em casa e vê só no dia seguinte o estrago que uma tempestade dessas faz na lavoura. Comigo foi diferente, eu estava no meio da tempestade. Iluminava com a lamparina e via a terra indo embora declive abaixo. Boa parte das sementes de soja que ainda não haviam germinado foram juntas'', recorda.
Não é por acaso que Bartz, hoje com 72 anos, não esquece aquela noite. A tempestade que caiu sobre Rolândia não mudaria somente a vida dele, mas a agricultura do Brasil. Vendo a terra vermelha sendo arrastada pela água, o ''alemão'' decidiu que era o momento de mudança. ''Foi quando me deu 'clique' de que não podia mais aceitar o manejo da terra da forma que fazíamos, com grade e arado''. O tal clique fez o homem decolar para a Europa e Estados Unidos e trazer na bagagem uma inovação: o plantio direto. Louco, foi o adjetivo que ele recebeu de outros agricultores quando saiu dizendo que não usaria mais o arado em suas terras.
Valeu a pena. O plantio direto alavancou a agricultura do país. Hoje é chamado de louco quem resolve utilizar o arado e a grade. Agora, o governo federal resolveu presentear Bartz com um reconhecimento. Na segunda-feira (dia 22), ele deve receber das mãos do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que estará em Londrina, o prêmio Apolônio Sales de mérito nacional.
A homenagem é justa e merecida. Bartz pode ser encarado como a síntese dos agricultores paranaenses. Mais de uma vez perdeu a safra por conta de problemas climáticos, em muitas ocasiões achou que não conseguiria pagar o financiamento contratado a juros altos, enfrentou burocracia e impostos. No entanto, à base de garra e criatividade, superou adversidades.
Muito bom de conversa, com um forte sotaque alemão, ele abriu o baú de sua história à FOLHA RURAL. Filho de imigrantes germânicos, nasceu no município de Rio do Sul (SC). Ainda bebê, foi com a família para a Alemanha. O regresso à terra natal dos pais se deu por conta de um problema cardíaco da matriarca da família Bartz. ''Fomos em busca de tratamento para a minha mãe'', explica. O perído de permanência na Europa deveria ser curto. Deveria. Era 1938 e o início da Segunda Guerra Mundial se desenhava. Eles foram impedidos de retornar. Arnold, o pai, foi convocado a incorporar as tropas de Hitler e chegou a ser prisioneiro de guerra, na Rússia.
Com a mãe e os irmãos enfrentou bombardeios, fome e frio. ''Em 1946 o inverno alemão chegou a ter temperatura de -29ºC. O frio dói mais do que a fome'', comenta. ''Minha mãe nos consolava dizendo que um dia voltaríamos ao Brasil, onde teríamos comida e calor'', completa. O retorno aconteceu em 1960, quando a mãe de Bartz já havia falecido. A família se instalou em Rolândia, já na Fazenda Rhenânia, que inicialmente tinha 40 alqueires.
Em 1963, os Bartz já inovavam, plantando trigo e soja enquanto a maioria do pessoal da região se dedicava ao café e à criação de porcos. Contudo, naquele tempo o clima também tinha suas oscilações. Em 1967, Arnold Bartz decidiu vender a Rhenânia. Herbert não deixou. ''Com a minha arrogância de jovem, achei que podia fazer melhor que meu pai. Então, ele arrendou a fazenda para que meu irmão e eu tocássemos. Em 1970, meu irmão resolveu se mudar e fiquei sozinho'', conta.
Em outubro de 1971, quando Herbert Bartz teve o seu ''clique'' de acabar com a erosão, com a terra nua sendo arrastada para os rios e com a falta de umidade castigando as sementes depositadas na terra ''tombada''. Informado pelo pesquisador Rolf Derpsch de que europeus e norte-americanos usavam um sistema diferente, comprou passagens de avião da Varig parceladas em 10 vezes e foi conhecer novas técnicas. Visitou Alemanha, Inglaterra e o estado de Kentucky, nos Estados Unidos, onde viu a técnica de plantio direto que mais lhe agradou. Aproveitou para comprar na ''terra do Tio Sam'' uma máquina plantadeira para plantio direto.
Voltou ao Brasil e encontrou sua lavoura de trigo muito vistosa, tratada com mil quilos de adubo por alqueire, tudo financiado pelo Banco do Brasil. Mas no dia 15 de julho de 1972 geou.
''Perdi 100% daquela safra. Tinha que pagar o banco, o arrendamento para meu pai, as parcelas das passagens para o exterior e a máquina plantadeira encomendada nos Estados Unidos que já estava no navio. Tive que vender o trator, uma colheitadeira, o arado, enfim todo o meu maquinário do sistema de plantio convencional. Foi por terra a minha ideia, que era começar o plantio direto de forma experimental, em apenas 20% da propriedade. Como fiquei sem maquinário nenhum do sistema convencional, tive que adotar logo o plantio direto em 100% da propriedade. Me apelidaram de 'alemão louco'.''

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