A luta pela sobrevivência da cafeicultura brasileira é árdua, incessante e diária. Neste momento que está se equacionando um grave problema conjuntural (renegociação das dívidas), não devemos esquecer que foi vencida apenas uma batalha. Os problemas e dificuldades continuam os mesmos, e para frente temos que modernizar a política cafeeira estruturando-a em novas bases, para definitivamente nos estabilizarmos. Não queremos benesses de qualquer espécie, mas não podemos ficar ao sabor de inescrupulosos e incompetentes.
Há 7 meses participamos da diretoria do CNC (Conselho Nacional do Café) e temos feito muitas sugestões, propostas e críticas. Satisfeitos ficamos com o trabalho deste conselho, onde encontramos pessoas da mais alta competência, imbuídas de ideais, lutando pela cafeicultura nacional.
Erros foram cometidos, mas com certeza só erra quem faz e quem trabalha. Competência não falta, mas o intuito é agregar mais pessoas e unir os cafeicultores para enfrentarmos os difíceis momentos que atravessamos.
Tenham a certeza que temos pessoas que trabalham pela cafeicultura porque gostam e amam o que fazem. Muitos poderiam viver de maneira mais cômoda, com vida farta. Na cafeicultura não há especuladores financeiros, há trabalhadores.
Transcrevo abaixo texto de Eça de Queiróz, escrito em 1867, que metaforicamente ou realmente se traduz na verdade de hoje, numa homenagem à todos os que trabalham:
''Há no mundo uma raça de homens com instintos luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão . Estes homens, sob o peso do calor e do sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o povo, e são os que nos alimentam....
...E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens, que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o servem?
Primeiro, despreza-os, não pensa nestes, não vela por eles; trata-os como se tratam os bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades; torna-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga; não lhes dá proteção; e terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma. É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo povo. E ainda que não sejam escutados, têm na amizade deles uma consolação suprema.''

O autor é cafeicultor e Presidente da Associação Paranaense de Produtores de Café (APAC)

mockup