Cooperativas e produtores de leite do Paraná estão trabalhando com um excedente de produção, não conseguindo colocar seu produto no mercado, em consequência da importação de produtos lácteos, com subsídios que chegam a 70% do custo de produção nos países de origem.
A agroindústria está sendo obrigada a reduzir os preços ao produtor, limitando o volume que recebe, e parte do produto foi direcionada para a fabricação de queijos e leite em pó. Segundo a Federação da Agricultura do Paraná (Faep) o temor é de que o mercado se estreite ainda mais, reduzindo a perspectiva de vendas do produto doméstico.
DesestruturaçãoO presidente da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), João Paulo Koslovski, diz que a grande preocupação é com a desestruturação do setor leiteiro. Para ele, o assunto tem que ser abalisado também pelo seu aspecto social, pela repercussão na geração de empregos e na sobrivivências desses produtores.
Se as importações continuam, segundo Koslovski, o perfil da produção vai sofrer uma mudança radical. Cerca de 80% dos 40 mil produtores que têm no leite uma das principais fontes de renda mensais, correm o risco de ter que deixar a atividade e ceder lugar para a pecuária de escala, a exemplo do que vem acontecendo com a suinocultura.
Em vista da crise, as principais entidades da agropecuária paranaense, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, que juntamente com a Comissão da Agricultura da Câmara Federal promoverão uma sessão pública segunda-feira, em Curitiba, para discutir propostas que viabilizem eficiência e segurança dos produtores brasileiros.
SituaçãoDe acordo com dados da Ocepar, no Paraná o leite é o segundo produto mais importante no faturamente das cooperativas paranaenses e movimentou no ano passado US$460 milhões, só ficando atrás da soja. Em 97 o leite foi responsável por 9% da movimentação financeira das 27 agroindústrias que atuam com o produto, e recebem 65% da produção estadual. O Estado tem uma produção de 1,7 bilhão de litros/ano, a maioria proveniente de pequenos produtores, destacando-se as bacias leiteiras do Sul e Oeste do Paraná.
A produção de leite no Brasil, no entanto, está ameaçada pelo mercado crescente de produtos lácteos de outros países, que chegam aqui altamente subsidiados. Há suspeita de triangulação dos importados de parceiros do Mercosul, entre eles o adquirido da Argentina, que pode ser procedente da União Européia (UE), pagando um imposto de importação de 16%, posteriormente vendido ao Brasil com preferência tarifária total (isento de imposto). Com a triangulação paga-se 11% a menos de imposto, o que resulta em desvio de comércio, quando os países do Mercosul deveriam atuar juntos frente aos terceiros mercados.
Para os produtores, o problema está na falta de medidas de proteção ao produto nacional. Leite e derivados adquiridos do Exterior sequer passam por análise de qualidade quando entram no País. São comercializados com a vantagem de maior prazo de financiamentos; juros favoráveis, mais baixos que os praticados internamente, atraentes para o importador. Na opinião de Koslovski, a saída é coibir as importações, alocar recursos para estoque de produtos lácteos e estabelecer uma nova política de apoio ao aumento do consumo.
De outro lado, está a convivência com uma renda inferior ao custo de produção, que ameaça a produtividade do rebanho paranaense, inclusive os produtores de alta tecnologia que exportam genética para o Centro-Oeste do País. Nos últimos meses, o preço pago ao produtor ficou entre R$0,14 e R$0,25/litro, bem abaixo dos R$0,22/litro que gastam para produzir, aponta Flávio Turra, integrante da Gerência Técnico Econômica da Ocepar. O Brasil, diz, tem potencial muito grande de produção a longo prazo. Resolvidas estas questões, a longo prazo, o País pode até chegar a exportar seu produto.

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