Um olho no capim e outro no gado
Cláudia Barberato
Capim no ponto; nem muito verde, nem muito passado, mas maduro. Este é um dos segredos do manejão, um sistema que está sendo adotado em 150 propriedades de sete Estados brasileiros (Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Pará, Maranhão, Minas Gerais e Bahia) e foi desenvolvido pelo agrônomo Alexandre Garcia Carvalho, de Goiânia.
A aplicação do manejão, explica Carvalho, consiste numa série de procedimentos que o fazendeiro terá que adotar sem gastar muito dinheiro. Não é preciso investimento pesado, mas as estruturas da fazenda que forma feitas na época das vacas gordas. É um projeto que prevê o aspecto social, econômico, zootécnico e agronômico da propriedade.
Aumento de suporte O agrônomo garante que em 12 meses, com investimentos mínimos, em várias fazendas conseguiu-se aumentar de 30% a 50% a capacidade de suporte (média anual), melhorar a produção dos pastos, minimizar as roçadas e anular totalmente as reformas de pastos.
Foi possível também, segundo Carvalho, diminuir a mão-de-obra, reduzir os remédios para ecto e endoparasitas, e fazer um incremento no tempo de abate, na fertilidade das vacas (indução de cio) e obter um gado mais dócil. A taxa de mortalidade também decresceu, lembra.
Na região de Ituiutaba (SP) 40 fazendas de gado de leite também estão adotando o sistema, fruto de uma organização administrativa das propriedades. O manejão pode ser aplicado em propriedades de produção de carne ou leite, desde que o fazendeiro se disponha a mudar alguns conceitos e tenha mão-de-obra para o trabalho.
Boi verdeA proposta do agrônomo é que o manejão seja um projeto auto-financiável e resulte na produção do chamado boi verde ou boi orgânico. Segundo Carvalho, o boi orgânico, criado a pasto, seria um animal livre de antibióticos, hormônios e outros produtos químicos que possam causar algum impacto ambiental, com tecnologia de produção precoce. Os bois verdes seriam alimentados com suplementação mineral e outros suplementos com proteína e energia.
Carvalho afirma que para fazer o boi verde, o pecuarista deve potencializar e tornar mais competitiva a sua atividade. O objetivo é aumentar a lotação de seus pastos e a engorda dos animais. Mas deverá ser uma técnica de que não tem capital para fazer investimentos em projetos de piquetes, máquinas caras e adubações pesadas, afirma o agrônomo.
AproveitamentoAs cercas velhas podem ser eletrificadas com 3 fios e lascas de 20 em 20 metros, aproveitando-se lascas e arames dessa mesma cerca para novas divisões. As pastagens podem ser reaproveitadas e as aguadas naturais cascalhadas se transformarão em bebedouros para beneficiar o gado.
O agrônomo garante que o retorno finaceiro será uma consequência. Nesse novo manejo, segundo Carvalho, o processo de degradação do pasto se reverte e passa a melhorar gradativamente; o gado amansa; a mão-de-obra se torna mais fácil; os gastos com roçadas praticamente desaparecem; a cigarrinha das pastagens fica sob controle; os problemas de fotossensibilização cessam; o uso de remédios e vermífugos diminui; o aproveitamento do suplemento mineralizado melhora; o gado engorda melhor, ficando mais fértil e produzindo mais.
Fechamento dos pastos Numa segunda etapa, depois dos incrementos de três anos de manejo, com os lucros adquiridos, poderia ser jogado, em alguns locais, gradativamente, um pouco de calcário ou uma fonte de fósforo parcialmente solúvel e mais algum tipo de adubo (quantidade racional), principalmente nos locais mais nobres: áreas de apoio já formadas com capins mais apropriados para a produção de feno em pé.
A área de apoio deve somar um terço da fazenda e, como a cada ano ela muda de local, em três anos será possível o total fechamento dos espaços vazios no solo devido as sementes que caem na terra no momento da veda (área que fica sem pastoreio). Esses pontos de apoio seriam vedados de forma parcelada em momentos estratégicos, para suprir a dificiência da seca.
Como isso, garante Carvalho, pode-se vender gado, durante o ano todo. Esse abate proporcionaria uma reposição mais fácil de bezerros da própria vizinhança (livre de fretes longos), comprando partidas menores e à vista.
Para diminuir a necessidade de adubos nitrogenados está previsto manter os pastos mais arborizados e colocar sementes de leguminosas junto com o sal mineral, em cochos móveis para o gado semear em vários pontos através dos excrementos.
Mais tecnologiaNuma terceira etapa, mais tecnificada, o pecuarista capitalizado, para garantir um suporte de três animais adultos/hectare/ano, recomenda o agrônomo, poderá investir na produção de silagem de mombaça, garantindo oito arrobas de engorda por animal/ano. É preciso também que os empregados, peças fundamentais para o sucesso do trabalho, sejam treinados. O objetivo é otimizar a pecuária, aumentando a qualidade da carne e baixando os custos de sua produção.
Segundo Carvalho, o Ministério da Agricultura e Associação Brasileira do Novilho Precoce, com apoio da ONU, através do PNFC (projeto novas fronteiras da cooperação para o desenvolvimento sustentável) estão propondo uma parceria para integrar a técnica do manejão à produção do novilho precoce à pasto (boi verde) agregado a preservação ambiental/segurança alimentar.





