Se a relação entre produtor rural e consumidor está mais estreita nos últimos anos, ela parece ter chegado ao ápice com um novo formato de relacionamento entre esses personagens com as chamadas Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA), um novo modelo de produção em que a cidade e o campo têm responsabilidades similares na produção de alimentos.

De forma simples, o conceito de CSA funciona da seguinte forma: consumidores da cidade se reúnem para financiar um produtor rural. Eles bancam de fato os custos de produção de um ano de alimento, por exemplo, e por isso são chamados de co-agricultores, são participantes ativos no processo. Em troca, recebem alimentos semanalmente do agricultor, que tem a segurança que tudo que está produzindo já tem um destino certo e geralmente recebe até antes pelo trabalho. Forma-se então um sistema muito bem estruturado no "organismo agrícola", que evita atravessadores, com o produtor recebendo o justo pela produção e os co-agricultores, ou consumidores, também pagando o justo pelo que é consumido. Em caso de intempéries climáticas ou outros problemas, todos arcam pelo prejuízo juntos.

A ideia chegou ao Brasil há aproximadamente sete anos, trazida pelo alemão Hermann Pohlmann, sendo as primeiras CSAs nascendo no interior de São Paulo, primeiramente na cidade de Botucatu. A estrutura segue princípios da chamada economia associativa, criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner na década de 1920 na própria Alemanha. Hoje no País são cerca de 100 comunidades, sendo que no Paraná as principais ações estão na região de Curitiba, mas ainda bem pontuais.

Wagner Ferreira dos Santos é co-agricultor na cidade de Bauru (SP) e diretor da CSA Brasil, entidade criada em 2013 com o objetivo de fomentar e divulgar tais conceitos e, inclusive, dar cursos específicos de como se criar as comunidades no Brasil. "As CSAs surgiram de uma percepção de que quem realmente nos traz comida é a agricultura familiar. Hoje eles estão oprimidos, deixando de fazer esse trabalho, pela falta de compromisso por parte dos consumidores (e má remuneração). Eles preferem arrendar a terra ao invés de ficar lidando com as incertezas da produção. O produtor se esforça para produzir o alimento, leva para uma feira ou atravessador, sem a certeza que vai ser vendido."

SEMENTE NA TERRA

Com a CSA, Santos relata que quando o produtor coloca a semente na terra, o alimento já tem destino. Como geralmente os depósitos para arcar com os custos do produtor acontecem no começo do mês, ele trabalha com tranquilidade. Na comunidade que Santos participa, por exemplo, o agricultor atua em parceria com 120 famílias co-agricultoras, com o compromisso semanal de enviar a elas sete itens distintos, entre folhosas, legumes, frutos, raízes e temperos.
O valor mensal pago pelos co-agricultores para que o sistema funcione, nesse caso, é de R$ 150, mas claro, isso depende de cada CSA, número de pessoas, volume de alimento, etc. "O que vemos dos agricultores é que não existe nada melhor do que participar de algo assim. Ele trabalha com a certeza. Isso traz uma tranquilidade numa atual intempérie, se ocorrer uma chuva de pedra ou qualquer outro problema climático, os consumidores vão apoiar, na alegria ou na tristeza."

No curso realizado em Botucatu e outras cidades, com 32 horas de carga horária, a entidade apresenta todo o conceito e como é possível trabalhar com as comunidades de forma prática. Vale dizer que as CSAs têm produtos de origem orgânica ou de produtores que estão fazendo a transição do convencional. Faz parte da filosofia desse tipo de trabalho. "O bacana é que o marketing não é mais feito pelo produtor, mas pelo co-agricultor, que busca aumentar o número de participantes na comunidade, diminuindo os custos rateados."

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