Cláudia Barberato
De Londrina
Uma década. Este é o tempo necessário para adaptação da produção doméstica aos padrões internacionais de qualidade que poderá tornar o Brasil competitivo no mercado externo.
Para enfrentar a concorrência externa, os sistemas de produção de leite que se projetam para o futuro próximo deverão pautar-se pela elevada produtividade. Dessa maneira, duas condições serão fundamentais para sobreviver e crescer em um mercado de forte concorrência: a eficiência produtiva e a eficiência gerencial. ‘‘Ambas serão essenciais para obter menores custos e maior qualidade do produto’’, afirma o pesquisador da Embrapa-Gado de Leite, em Juiz de Fora (MG), Duarte Vilela.
Baixa produtividadeSegundo o pesquisador, no Brasil a característica mais marcante da maioria dos produtores de leite é a baixa produtividade. ‘‘Embora existam no País alguns grupos de produtores que podem ser classificados como eficientes, a maioria ainda permanece com baixos índices de eficiência técnica, e por consequência, econômica’’, afirma Vilela.
Emergir da atual produtividade ou mesmo dos 3.000 kg/vaca/lactação das explorações mais especializadas, para níveis superiores, avisa Duarte Vilela, exigirá mudanças radicais, com um rigoroso estudo de viabilidade econômica.
Outro ponto a considerar, lembra o pesquisador, é que as pastagens degradadas são também causas importantes da baixa produtividade do rebanho leiteiro, com perdas significativas de renda para os produtores.
‘‘Estima-se que 80% do leite produzido no País sejam provenientes da produção a pasto, oriundo de pastagens degradadas de brachiária, fazendo com que a erosão dos solos e o uso de agrotóxicos sejam maiores nessas áreas’’, diz o pesquisador.
Outro grave problema da atividade, apontado por Duarte Vilela, está na falta de profissionalização de grande parte dos produtores: ‘‘Não foi só o rebanho que não se especializou. O produtor também não. Parte expressiva da produção leiteira ainda se dá em estabelecimentos cuja principal atividade não é a produção de leite’’.
Muitas das propriedades leiteiras, argumenta Vilela, são pequenas demais e pela baixa rentabilidade inviabilizam a produção especializada. ‘‘Esta é uma consequência inevitável da estrutura fundiária brasileira, em que predomina a pequena propriedade, na maior parte das regiões do País.’’
O grande número de produtores, segundo Vilela, além de dificultar a especialização e a disseminação de informações, encarece a coleta e o controle de qualidade do leite por parte da indústria.
O pesquisador calcula que a escala média de produção deverá crescer, aproximando-se do padrão mundial, mas dificilmente haverá espaço no mercado para mais do que uma pequena fração de produtores hoje já em atividade. Em outras palavras, a ‘‘reestruturação’’ da produção leiteira não se dará sem grave custo social. ‘‘Tal custo é uma considerável barreira social à modernização da atividade.’’
ModernizaçãoPara que o problema da realocação dos ‘‘produtores excedentes’’ seja o menor possível, duas condições precisam ser satisfeitas: a economia tem de estar em crescimento (o que abre oportunidades em outras atividades agrícolas e mesmo no setor urbano), e a oferta de crédito tem de ser elástica, a taxas compatíveis com a atividade do setor.
Na ausência dessas condições, Vilela considera que o produtor terá a maior parte do ônus de ajuste. Restará também o setor informal, o que leva a crer que este segmento ainda manterá expressão por muito tempo. Um setor informal ‘‘inchado’’ é, por sua própria existência, uma dificuldade a mais no caminho da modernização. As cadeias formal e informal do leite competem entre si. A capacidade, da cadeia formal de reivindicar preços, é limitada pela oferta da cadeia informal.
Resumindo, segundo o pesquisador da Embrapa, pode-se atribuir o atraso relativo da pecuária leiteira aos seguintes fatores: longo período de regulação que inibiu a demanda de tecnologia, enquanto induziu o crescimento pela via extensiva; a falta de especialização do rebanho, decorrente da instabilidade do preço do leite; a falta de especialização dos produtores e grande número de extrativistas; o pesado custo social da reestruturação da produção; o peso elevado do setor informal, que inibe a modernização; falta de coordenação entre os diferentes segmentos da cadeia produtiva.
Além destes, há outro fator, avisa Vilela: ‘‘o papel que a indústria representou neste processo. Esta teve um papel fundamental na viabilização da expansão horizontal da pecuária leiteira. Havia no País um enorme potencial produtivo – na forma de rebanhos e pastagens nativas – que, para ser realizado, carecia de mercado. A indústria veio justamente propiciar o mercado que faltava.’’
Mas se, por um lado, a indústria criou condições para a expansão da pecuária leiteira, por outro, segundo Vilela, pouco se fez pelo aumento de produtividade na atividade. Em vez de forçar a mudança, como aconteceu em tantos outros casos, a indústria de laticínios preferiu adaptar-se às precárias condições da produção leiteira, com seu suprimento instável de matéria-prima de baixa qualidade e alto custo de coleta.
Até hoje a indústria sofre com a baixa qualidade da matéria-prima e com a estacionalidade do suprimento do leite. ‘‘Por décadas, o setor industrial aceitou leite de qualidade inferior, recusando-se a pagar prêmio por qualidade e quantidade, e até lucrou com a sazonalidade da oferta. Isto porque discriminou o preço entre o leite entregue na safra e o leite entregue na entressafra, pagando preço irrisório pelo primeiro, ao mesmo tempo em que financiava os estoques acumulados na safra a juros favorecidos.’’
Modelo competitivoNesta década todos os elos da cadeia produtiva do setor leiteiro, avalia Duarte Vilela, estão submetidos a uma intensa pressão de modernização, decorrente dos processos de abertura da economia, integração regional, liberação dos preços dos produtos lácteos e da concorrência dos produtos lácteos importados do Mercosul e da Comunidade Européia. Essa modernização, segundo o pesquisador, tem sido decisiva para que a atividade leiteira passe de um modelo extrativista para um modelo competitivo e sustentável.
Estimativas mostram que serão necessárias aproximadamente 223 mil propriedades, com média de 250 litros/dia, para produzir 20,4 bilhões de litros anuais (registrados em 1998), produzidos pelos 1,3 milhão de produtores nacionais. A consequência de uma concentração de produção, uma forte tendência apontada para o setor, será a transferência de parte dos pequenos produtores para o mercado informal. Isso comprometerá o cumprimento da legislação sobre a qualidade do leite e derivados destinados ao consumo, o que é preocupante sob a ótica da saúde pública.Baixo padrão de qualidade dos lácteos demonstra que o País continuará excluído do mercado exportador ainda por pelo menos uma década
Produção leiteiraBaixa produtividade. Esta ainda é uma das características mais marcantes na produção de leite no Brasil

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