Um jeito ecológico de produzir
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de junho de 2002
Ana Setti<br>Reportagem local 
A natureza gosta de cooperar quando é tratada com respeito. Com esse conceito o casal Norbert e Cornélia consegue boa rentabilidade com um manejo ecologicamente correto
Melhorar a qualidade, aumentar a produtividade e obter estabilidade financeira com os rendimentos da propriedade, sem dependência de financiamentos bancários, são os principais objetivos de qualquer produtor rural. Para conseguir isso, imagina-se que, entre outras ações, seja necessário fazer maciços investimentos em insumos diversos, especialmente nos mais agressivos, para evitar a ameaça das pragas. Nem sempre, no entanto, como mostra a fazenda Palmeira, em Santa Mariana, a cerca de 80km de Londrina, que mantém com a natureza uma parceria das mais produtivas, baseada no mútuo respeito.
Em uma área de 400 alqueires, pontilhada aqui e ali por exuberante mata nativa e embelezada por três lagos, o casal Norbert e Cornélia Gamerschlag - ele, alemão e ela, descendente de suiços - administra uma plantação diversificada e um plantel de 350 cabeças de gado confinado. São cafeicultores por definição, já que destinam 68,76 alqueires do total da área para 700 mil pés de café, dos quais 24 mil estão reservados para uma produção orgânica. O restante da terra é aproveitado para soja, milho, cultura de inverno e adubo verde, com plantação de tremoço, aveia preta ou nabo forrageiro.
Uma das preocupações que movem o casal, no comando da fazenda há 11 anos, secundado pelo administrador Matias Caetano dos Reis, é o aproveitamento máximo dos recursos da propriedade em benefício dela mesma. Assim, a idéia das culturas que resultam em adubo verde, a ser incorporado à terra, evitando a utilização de aditivos químicos. Também o aproveitamento total do esterco do gado confinado, cerca de 80 toneladas por ano, que vira um composto, a ser adicionado à plantação em uma média de 42 toneladas por hectare. A alimentação do gado resulta, igualmente, de uma somatória de recursos próprios: cana de açúcar, que vem de uma outra propriedade do casal, localizada no Estado de São Paulo, e de milho em grão, produzido na fazenda Palmeira. Para complementar, farelo de algodão e sal mineral, únicos ingredientes adquiridos no comércio local.
Em tudo, a preocupação maior de respeitar a natureza. É preciso bom senso e um pouco de coragem para avaliar o impacto que causa na plantação a diminuição substancial do uso de fungicidas, comenta Norbert, falando do cafezal convencional da fazenda. Além de vir substituindo, paulatinamente, o café velho por variedades mais resistentes à ferrugem, e de ter diminuído a adubação química e a aplicação de herbicidas, o casal praticamente deixou de usar fungicidas há 7 anos, preferindo um preparado natural, conhecido como calda viçosa, desenvolvido na Faculdade de Agronomia de Viçosa, em Minas Gerais, que ajuda a prevenir o aparecimento da ferrugem e a diminuir a incidência do bicho mineiro. Isso porque, como explica Norbert, preserva o equilíbrio da planta, o que atrai tanto a praga, quanto seu inimigo natural, que, no caso do bicho mineiro, é a aranha.
Na área menor, em que produzem café orgânico, os cuidados ecológicos são intensificados, tanto pelas exigências de certificação, quanto pela ousadia de Norbert e Cornélia na experimentação. Estamos sempre atentos às novidades, em termos de técnica, e às dicas de pessoas que pensam como nós, garantem. Mas gostamos, especialmente, de observar as reações da natureza, quando tratada com respeito.
Em meio ao cafezal, que não pode receber nenhum tipo de aditivo químico, o casal plantou árvores nativas, como jacarandás, coqueiros, ipês, sibipirunas e cedros, pensando em gerar uma biodiversidade maior e, assim, atrair pássaros e insetos, inclusive os inimigos naturais das pragas, resgatando o ciclo biológico natural, esclarece Cornélia. Os resultados têm sido muito bons. Apesar de muita gente duvidar, comenta Norbert, é possível restabelecer o equilíbrio ecológico sim.
A experimentação, no entanto, não pára por aí. Em parceria com um amigo apicultor, o casal instalou uma criação de abelhas, próxima da área com café orgânico. O parceiro aproveita o mel e a fazenda lucra com o trabalho de polinização das plantas.
O café orgânico havia sido, até este ano, um excelente negócio, conseguindo o dobro da cotação do café convencional. Hoje, contudo, segundo Norbert, há muitos produtores e poucas empresas intermediárias, que canalizam o café orgânico para o mercado interno, a menor parte, é para o externo, especialmente Japão e Europa. A tendência é de que a especulação aumente e os preços abaixem, comenta.
Embora o café não venha dando os resultados financeiros esperados, o casal não pensa em desistir da atividade. O café ocupa uma área muito extensa, defende Norbert, emprega muita gente e continua sendo uma produção de grande importância econômica. Para manter a propriedade lucrativa, apesar dos altos e baixos dos preços, o casal aposta na diversificação que, segundo Norbert, hoje é o trunfo do agricultor.


