Um inimigo da rainha das flores
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de dezembro de 1996
Cerize Gomes De Guarapuava 
As rosas são as flores preferidas para jardins em virtude das suas cores, formas e perfumes. Com tratamento de rainhas, elas podem ou não ser obtidas a partir de enxertos e costumam adornar jardins dos mais simples aos mais exóticos. Em Guarapuava (Centro-sul do Estado), essas flores estão sendo vítimas do desequilíbrio ecológico.
Besouros desconhecidos da população urbana estão intrigando jardineiros e atacando os jardins, escolhendo exclusivamente as rosas como alimento preferido. Eles atacam em grande número, costumam pousar até seis ou sete em cada rosa, e em uma hora, devoram uma flor.
As roseiras atacadas ficam bastante afetadas, as pétalas são quase todas devoradas, as flores murcham e perdem a beleza. O jardineiro Genauro Stefanyszen, que trabalha em vários pontos da cidade, acredita que o ataque dos besouros é algo inédito. A gente nunca tinha visto esse bicho comendo rosas e então fica sem saber o que fazer. Na verdade estamos todos precisando de orientação, afirma.
Perigosos O Bairro Santa Cruz, em Guarapuava, foi um dos primeiros a sofrer o ataque dos besouros. A moradora Sandra Dallago, professora, diz que não sabe mais o que fazer para defender suas rosas dos insetos. Eles são feios e esfomeados. É preciso ter cuidado para que não comam todas as rosas, diz ela, enquanto explica que não quer usar produtos químicos para não afetar ainda mais as flores.
Outra moradora mais antiga do Santa Cruz, Olga Ramos, conta que há muitos anos cultiva rosas e que nunca tinha visto algo assim. Ela relatou que no ano passado, por volta de novembro, apareceram alguns desses besouros; eram poucos, devoraram algumas rosas e se foram. Este ano, mais ou menos na mesma época, eles voltaram, só que em maior número e com mais fome. Meu jardim, que era coberto de rosas, está feio e sem flores, diz, desanimada.
Olga usou inseticida e alguns venenos que tinha em casa para combater a praga. Os besouros morreram, mas as roseiras ficaram bastante prejudicadas. A maioria das pessoas que cultivam rosas nunca tinha visto nada igual. Devido ao recesso de fim de ano, a Folha não conseguiu contatar os técnicos do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e da Emater em Guarapuava, que poderiam dar mais informações sobre o problema.
Desequilíbrio Para ajudar as pessoas que estão tendo que conviver com o que está sendo chamado de praga das rosas, a reportagem da Folha procurou o entomologista e taxidermista Hipólito Schneider. Ele tem a maior coleção particular de insetos da América Latina, com mais de 200 mil exemplares. É responsável pelo Museu Entomológico da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e presta trabalhos para a Copel e para a Itaipu Binacional.
Schneider classificou os besouros como sendo da família Rutelidae, nome científico de Macrospia morio, da categoria dos coleópteros, sendo conhecido popularmente como uma das espécies de besouros. O entomologista custou a acreditar que esses insetos estavam devorando rosas.
Eles vivem nos campos, em meio aos caraguatás, e se alimentam dessas plantas. É difícil acreditar que estejam atacando roseirais, explicou o entomologista. A única explicação possível é que diante da destruição do seu habitat natural, esses insetos estejam sendo forçados a mudar sua cadeia alimentar, enfatizou.
Schneider disse que o êxodo desses insetos do campo para a cidade demonstra que está havendo a destruição dos caraguatás nos campos de Guarapuava, empurrando a espécie para a área urbana, onde ela precisa encontrar novas formas de sobrevivência.
Hipólito Schneider aconselha que as pessoas que estão tendo os jardins atacados pelos besouros não utilizem produtos químicos ou espécies de veneno que possam atingir ainda mais as roseiras. É preferível que se faça um acompanhamento e retire os insetos, destruindo-os depois, do que colocar algum produto que venha a prejudicar ainda mais essas flores, que têm uma natureza bastante delicada, recomendou.
Estamos diante de mais uma comprovação de que a falta de equilíbio ecológico pode trazer grandes danos para o meio ambiente e para a humanidade, lamentou o entomologista.


