Um indiano de coração brasileiro
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sábado, 01 de novembro de 2008
Raquel de Carvalho<br> Reportagem Local 
Trinta e seis anos de dedicação ao desenvolvimento de tecnologias agrícolas no Brasil valeram ao pesquisador Yeshwant Ramchandra Mehta, indiano naturalizado brasileiro, o Prêmio Destaque Tecnológico do Banco do Brasil - premiação concedida por meio da Associação de Desenvolvimento Tecnológico de Londrina (Adetec). Das mãos e do trabalho de Mehta e sua equipe surgiram meios de cultivo e controle de doenças que aumentam a rentabilidade da agricultura e reduzem o número de aplicações de produtos químicos na lavoura.
Um dos benefícios surgidos das pesquisas nos campos e laboratórios do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) - onde atua desde 1974 - pode ser comprovado na cultura do trigo. Até a década de 1980 o Paraná produzia de 800 a 1.200 quilos por hectare, com uma média de três a quatro aplicações de fungicidas.
Com o desenvolvimento de novas tecnologias, a produtividade atualmente está entre 2.300 e 2.400 quilos por hectare com no máximo duas aplicações de defensivos - em muitos casos o agricultor não chega a fazer nenhuma aplicação. ''Esses avanços foram obtidos graças ao trabalho de melhoristas, fitotecnistas e toda a equipe de apoio'', diz Mehta.
A diminuição do número de aplicações para o controle das doenças do trigo, segundo o pesquisador, é resultado da adoção de práticas como o plantio direto. ''Esta tecnologia (PD) não se resume à utilização de máquinas específicas, mas ao sistema de cultivo'', afirma.
Para ele, é importante, por exemplo, fazer a rotação de culturas para quebrar o ciclo das doenças. Além disso, adotar um esquema de aplicação de fungicidas, com a escolha correta do produto, o número e o intervalo das aplicações e a data da última aplicação para evitar os efeitos residuais do produto na cultura.
Mehta afirma que seu trabalho sempre se baseou no conceito do manejo integrado de doenças e já atuou como fitopatologista nas culturas de trigo, algodão e soja - esta última prestando consultoria a instituições da Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai. Segundo ele, o conceito exige, entre outras práticas, a utilização de sementes apropriadas tratadas com fungicidas, e classificação de cultivares de acordo com o grau de resistência a doenças. Outro ponto que deve ser levado em consideração na prevenção de doenças é a época de plantio.
Os trabalhos resultaram em três livros, escritos em português e espanhol: ''Manejo integrado de doenças do trigo'', ''Doenças da soja'' e ''Manejo de doenças do trigo''. A produção científica de Mehta também é incessante: desde o início de suas atividades profissionais já publicou 110 artigos em publicações nacionais e estrangeiras.
Atuando basicamente com trigo, o pesquisador deu sua contribuição em outras culturas, como feijão e algodão, com as quais trabalha nos últimos 12 anos. Entre 1991 e 1994 foi convidado pelo Banco Mundial a prestar consultoria na Bolívia com trigo e soja.
A atuação de Mehta foi decisiva para solucionar um problema enfrentado pelo Iapar com a cultura do algodão. A instituição lançou a variedade Iapar 71, que acabou atacada por uma doença, causando prejuízos aos agricultores. Os sintomas eram similares à doença alternaria e como o material havia sido lançado como sendo resistente à enfermidade, os produtores entraram com ações na justiça contra o Iapar pedindo indenização.
Após quatro ou cinco meses de pesquisa, Mehta comprovou que embora os sintomas fossem semelhantes, o mal que atacou as lavouras de algodão era na verdade a Stemphilium, doença nunca antes detectada na cultura. Com o resultado da pesquisa, os produtores desistiram das ações judiciais.
O pesquisador avalia que depois de um período difícil, com defasagens salariais e falta de recursos para a pesquisa, o Iapar hoje tem perfeitas condições para a realização do trabalho. ''Poucas instituições no Brasil têm a estrutura do Iapar'', afirma. Ele destaca também a possibilidade de parcerias com instituições públicas e privadas.


