Um grandioso evento de civismo
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de outubro de 2019
null 
Na cidade pequena, o desfile de 7 de setembro era o grande acontecimento, envolvendo toda a comunidade escolar, pais e autoridades da época. Os preparativos começavam meses antes, criando uma expectativa muito boa, uma trabalheira danada, uma curiosidade entre os alunos para saberem quais seriam as suas representações no desfile. Já começava com uma coisa que a gente adorava: éramos dispensados da última aula para poder ensaiar, apesar de não gostarmos muito de marchar nas ruas, mas com aquele diretor botando ordem, ai de quem se atrevesse a fazer graça. Era um, dois, esquerda direita, nas evoluções a gente se atrapalhava e ele fazia repetir até aprender. Como não tinha asfalto, levantava até poeira! Todo mundo tinha que marchar, independente do que fosse representar. Tínhamos uma fanfarra muito boa que até ganhou um prêmio em um concurso regional. Lembro-me daquela jaqueta amarela com uma estampa da Disney nas costas que eu achava linda ...principalmente numa certa pessoa...
Os competentes e esforçados professores lançavam temas históricos, esportivos, culturais e os alunos respondiam com muita boa vontade. No final da década de 1960, um desfile foi inesquecível para mim, quando representei uma modalidade esportiva, entre outras, em cima de um trator, no caso, o carro alegórico. No quesito História do Brasil D. Pedro I desfilou num cavalo, com trajes típicos e ele era realmente um príncipe, escolhido a dedo, na verdade o meu príncipe encantado. Havia ainda as princesas, o José Bonifácio, índios, escravos e etc e tal.
Dentro das limitações da época podíamos dizer que o Desfile de Sete de Setembro era um evento grandioso, com tanto empenho dos professores e colaboração dos alunos.
Interessante também era o palanque das autoridades. Quem subia nele? Os diretores do primário e do ginasial, o padre, o prefeito, delegado, vereadores, cartorário, pessoas importantes da cidade. Uma coisa que não me esqueço era ver as mulheres usando perucas (muito chique) e óculos escuros, além de uns vestidos meio extravagantes, novos, talvez porque não estivéssemos acostumados com tanta "elegância"...
No hasteamento das bandeiras cantávamos os hinos cívicos colocando todo nosso orgulho e ardor, sem um mínimo deslize, em posição de sentido, conforme havíamos aprendido e quase ameaçados para não errar. Daí vinham os discursos das autoridades, aos quais não prestávamos a mínima atenção, mas gostávamos de ver os colegas recitarem poemas cívicos, alguns gaguejando, outros muito rápidos e aliviados ao terminarem. E a gente aplaudia animadamente.
Encerrando o desfile caminhávamos de volta para o colégio, felizes, animados, claro que marchando, ao som da fanfarra, agora mais descontraídos e cientes de ter cumprido uma missão: realizar o grande evento do ano escolar. Aí a gente sentava na grama, fazia rodinhas e comentava os detalhes daquela festa ímpar naquele tempo cheio de alegria e criatividade que, como não dá para repetir, a gente guarda carinhosamente no coração.
"Na cidade pequena, o desfile de 7 de setembro era o grande acontecimento, envolvendo toda a comunidade escolar, pais e autoridades da época"
ESTELA MARIA FREDERICO FERREIRA, leitora da FOLHA


