A sexta-feira começou agitada em Cruz Branca do Norte, afinal o dia seguinte seria de grande acontecimento. Raul, o barbeiro, estava esbaforido com o movimento do seu Salão América, que há 48 anos estava localizado no mesmo ponto. Todos os aposentados aproveitavam para deixar o cabelo em ordem, afinal no dia seguinte aqueles que trabalhavam de segunda a sexta é que aproveitariam para melhorar o penteado, ficando mais bonitos para o acontecimento.
Na rodoviária, quando chegou o ônibus das 7h30, todo mundo ficou de olho. Desceu um senhor que ninguém antes havia visto por ali. Vestia roupa elegante, chapéu, mas não tinha pasta daquelas que os vendedores de remédios usavam. ''Veio pro acontecimento de amanhã'', sentenciou Joaquim, há 37 anos dono do Bar Rodoviário.
Nas doze ruas asfaltadas, movimentação. O prefeito, doutor Licurgo, um sitiante dono de 10 alqueires metido a falar palavras difíceis, as quais aprendia nas enciclopédias que colecionava, andava pelas ruas depois de mais de mês recluso na prefeitura, saindo só para fazer o trajeto sítio-prefeitura e prefeitura-sítio.
Como de costume, alisava o bigodão preto e depois passava as mãos pelas bochechas avermelhadas a cada minuto. Distribuiu sorrisos. Não foi correspondido pela maioria. Nem na véspera do acontecimento o povo dava folga. Praguejou. Desde que seu principal opositor, o vereador Prates, denunciara o sumiço inexplicado, do pasto municipal, de dois novilhos que faziam parte do patrimônio público da cidade, as coisas andavam ruins para ele.
Prates, vereador no quarto mandato, morador desde sempre de Cruz Branca, orgulhoso de ter estudado dois anos do ginásio na capital, estava mais serelepe do que nunca. Alto, esguio, barba muito rala e já com sinais de calvície, foi o primeiro freguês do dia de Raul e deixou marcado horário para o dia seguinte, mesmo sabendo que o barbeiro nunca marcou horário para ninguém. ''Tem que caprichar. Vem retratista da cidade grande para o acontecimento'', comentou. Enquanto estava na cadeira, fez questão de repetir para quem pudesse ouvir: ''Licurgo sumiu com os boizinhos.''
No ônibus das 19h30, mais dois convidados para o acontecimento. Na saída da missa, em uma rodinha de conversa de senhoras, o comentário era de que o governador poderia vir. Clotilde, mulher do médico Alcântara, o único da cidade, deixou claro que recorreria aos serviços de Bento, cabeleireiro da cidade vizinha, maior. E faria penteado igual ao da mulher da revista que o marido recebeu pelo Correio.
O sábado foi agitado e ansioso, até as 16h, quando a filha de Prates subiu ao altar para casar com o filho de Licurgo. A cidade quase toda foi à igreja e à festa, regada a tubaína e churrasco, com carne macia de novilhos. Tudo cedido pelo pai da noiva.
Wilhan Santin - Jornalista da FOLHA DE LONDRINA

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