Meu avô era homem sério. Falava firme quando achava necessário, o que acontecia quase diariamente. Não gostava de mal feito nem de teimosia, embora fosse teimoso de nascença. O bigode, o chapéu e a camisa sempre alinhada lhe conferiam ainda mais respeito. Por isso dava conselhos como quem dava uma ordem. E tinha um para cada ocasião. O tempo passou, o velhinho descansou mas suas palavras ainda matracam na mente. E nestes últimos dias, acabei me recordando de uma fala dele que, garanto, pode servir para muita gente.
Meu avô nunca tirava do bolso o fumo de corda, o canivete e uma caixa de fósforos. E reservava sempre um espacinho num dos bolsos da calça para guardar o lenço, que servia para enxugar as mãos, limpar a lâmina do canivete, descascar a fruta apanhada do pé, tirar o espinho entalado na pata do cachorro... Outra coisa que ele nunca esquecia em casa era o guarda-chuva, a não ser quando precisasse sair já estivesse chovendo. Aí, simplesmente esperava os pingos cessarem de cair e saía faceiro, com o guarda-chuva pendurado no antebraço.
Meu avô, acreditem, nunca tomava chuva. Dizia que era perigoso para os ''purmão'' e que lhe atacava a garganta. Não que odiasse São Pedro. Pelo contrário. Agradecia sempre a água que caía do céu e que irrigava as sementes de milho, enxarcava o arrozal, alegrava os bichos, enchia o açude e era garantia de sobrevivência em tempos de seca.
Meu avô, como disse, tinha uma explicação e um conselho que dava sempre que as nuvens enegreciam e ameaçavam desabar sobre nossas cabeças. Um conselho que servia, principalmente, quando alguém chegava à sua porta surpreendido pela chuva ou então cruzava com ele todo ensopado na vendinha, o centro social da vila com pouco mais de 500 almas.
Meu avô, antes de principiar a falar, cumpria o ritual. Tirava do bolso o pacotinho com um pedaço de fumo, fazia um vinco na palha e a dividia no tamanho exato para o futuro cigarro. Abria e passava o canivete na palha até deixá-la macia. Pacientemente, ia tirando pequenas lasquinhas de fumo e colocando na palha cortada. Depois, com a baba que vertia da boca, enrolava o cigarro. Acendia e dava uma primeira baforada. E ainda com o cigarro na boca, desandava a falar.
Meu avô começava tudo com a mesma frase. ''Lá em casa, sempre digo: só toma chuva quem não é prevenido. Falo para os moleques que em dia com sol a gente tem que sair de casa com guarda-chuva. Se chover, a gente não molha. Se fizer sol, a gente não esquenta a cabeça.''
A prosa de hoje é dedicada aos avós, que nos deram lições na infância e nos ensinaram coisas que jamais serão esquecidas. Coisas que, como netos teimosos, a gente nunca pratica.
H.Ramos Bezerra.

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