UM DEDO DE PROSA
Histórias de famílias bem sucedidas que se desmantelam no momento da partilha de bens, após a partida do patriarca, são bastante conhecidas em várias partes do mundo. Quem assiste a cena, muitas vezes fica perplexo pela revolução que o dinheiro pode provocar. Mas há também histórias felizes de quem sabe repartir. Ou mesmo de causos inusitados, como o que seu Amâncio, o dono da venda da vila, me contou outro dia.
- Fez um ano onti que perdi a herança que meu pai me dexô! , disse ele em tom de melancolia.
Curiosa, tentei encompridar a conversa.
- Eu nem sabia que o senhor tinha tido mais bens, além da venda?!
- É...! Bem da verdade, nem era coisa de si ficá rico. Era um bem que nem sei estimá o valor.....Era um galo, o Pavaroti, qui pertincia a meu finado pai, seu Terto.
Antes mesmo que eu expressasse qualquer reação, ele emendou.
- O nome era mesmo uma homenage praquele cantor di ópera, lá das Europa. Cantava bunito di se vê! Ainda mais quando os neto chegava da cidade e corria pra porta do galinhero. Eles desembestava pra casa do biso, mas nem pra pedi a bença chegavam perto dele. A visita da molecada era memo pro Pavaroti, pra assiti o show que ele dava. Enchia o peito, arribava as pena da crista e do rabo e cantava sem pará, como se tivesse num tiatro. Uma porção de melodia! - contava seu Amâncio, com o rosto perdido nas lembranças.
- Quando meu finado pai se foi - continuava sua história o dono da venda da vila -, Pavaroti já nem tinha mais voiz. Era calo nas corda vocal, me disse um veterinaro que passô por aqui. Mas nem por isso dexava da cantoria rouca quando tinha as criança pra lhe escutá. Como minhas irmã não despertaro interesse pelo bicho, trouxe ele aqui pra casa, junto com otras galinha que meu pai tinha. Queria criá, pra aumentá a família do Pavaroti. O bicho me valia mais que quarqué riqueza que tivesse herdado!, garantiu seu Amâncio com determinação.
Ousei, então, a perguntar-lhe que fim havia dado ao galo cantor.
- Nas féria, meus neto vieram me visitá e trouxero o cachorro deles, um iorquixari, mirradinho e feio di dá dó! E num é que o danado atiço os dois cachorro do quintal, que já tavam acostumado com galo! Meu irmão foi colhê umas manga no pé que fica lá perto do galinheiro e esqueceu di fechá o portão. Aí, os bicho invadiro e foi aquele galinicídio.... acabaro com o Pavaroti e outras cinco galinha.... Do meu finado pai, seu Terto, me restô apenas as lembrança e a saudade!!! Dei treis dia pra que sumisse com os cachorro do quintal. Mas no fim tive que volta atrais e reconhecê que meu pai Terto e o galo Pavaroti tinham si ido e os neto, que me dão muita alegria, iam achá outro motivo de diversão.
Após o relato de seu Amâncio me vi na obrigação de rever meus conceitos. Enquanto me esforço no trabalho pensando em reunir alguns bens para deixar uma vida mais confortável a meus filhos, a maior herança com certeza está no coração e nas coisas simples que vida em família pode produzir.
Até sábado!
H. Ramos Flores
A prosa de hoje é só um recado para quem, como eu, chega em casa todos os dias tarde da noite, quase sem tempo ou motivação para abraçar meus filhos que não me pedem mais que um sorriso e alguns cafunés. Gente, está na hora de repensarmos a vida!





