UM DEDO DE PROSA
Neste espaço a gente conta histórias que nos remetem para o presente. As vezes são ''causos'', apenas; às vezes os temas são pano de fundo para chamar a atenção de embaraços atuais. Hábitos do Brasil caboclo, do interior à moda antiga querem apenas nos mostrar que éramos felizes e não sabiamos. Nem sempre.
Pois é, mas aqui também coloca-se temas que suscitam debates. Começo dizendo que, a julgar pela preocupação ambiental no campo, os governos de 30 anos atrás eram melhores que os governos atuais. E a comunidade técnica também. Era mais comprometida.
No início da década de 80, os pesquisadores colocaram em prática o Manejo Integrado de Pragas, um projeto que já vinha sendo estudado em laboratório e incluia o controle biológico. Foi na cultura da soja. Mas o controle biológico foi aplicado em outras culturas como o algodão, para controlar o bicudo, e a mandioca, no Noroeste do Paraná, para controlar o mandarová.
Foi na soja, pela sua importância econômica, que as vantagens do manejo ficaram bem caracterizadas. E foi interessante. Lembro-me de agricultores que guardavam na geladeira a ''suco'' das lagartas masseradas, infectadas com inimigos naturais. Aquele extrado seria pulverizado na época do ataque, na safra seguinte, e então a praga seria controlada (biológicamente) pelo seu principal parasita, o baculovírus.
Estou colocando na linguagem simples. Que os técnicos da época me perdoem e relevem a ausência de termos mais adequados. Mas a ideia era esta. E o baculovírus não era o único inimigo. Joaninhas e até marimbondo e um certo tipo de aranha foram vistos atacando a lagarta. O conceito era: o veneno usado para matar a Anticarsia gemmatalis, a lagarta-da-soja - porque não era seletivo -, também mataria seus predadores, os inimigos da lagarta e, portanto, aliados do agricultor. O mundo da fauna biológica é fantástico!
O veneno seria uma arma perigosa porque provocaria (e provoca) o desequilíbrio, que deixaria a lagarta reinar sozinha e que, um dia, não seria combatida nem pelo controle químico porque poderia criar resistência.
Gente, quem escreve aqui é um leigo e admirador da técnica. De repente, se não me engano em 2008, fico sabendo que desde a virada do século, a aplicação de veneno voltou a ser tão intensa quanto antes dos anos 80. Vejam como regredimos.
Não é a primeira vez que vejo provas concretas do abandono de uma técnica que deu certo e que foi tão badalada na ocasião. Em matéria recente publicada na Folha de Londrina um cientista deixa entrever que o agricultor abandonou a técnica (e o veneno voltou a ser aplicado como no século passado) porque ''tem na cabeça a visão empresarial''.
Pergunto, com tom de provocação que o tema merece. Foi o agricultor que abandonou a técnica ou foram os técnicos (da pesquisa e extensão) que abandonaram o agricultor? Pior que abandonar o agricultor é relegar a técnica.
Outra coisa: Essa tecnologia é fruto de política pública voltada para a agricultura como economia e para o ambiente, como inspiração na qualidade de vida, saúde, etc. Por que os governos a abandonaram? Por que as instituições de pesquisa permitiram? Por que não deram suporte ao governo?
Acho, sim, que o agricultor não poderia negligenciar já que o manejo é um conhecimento consolidado. Mas, pergunto, será que foram perguntar o porquê do retrocesso? Há uma pesquisa, mesmo que aleatória, em que o agricultor justifica a opção pelo veneno?
Antes de debitar ao agricultor o ônus do retrocesso, por que não pensar em uma campanha mostrando os benefícios ambientais e econômicos do MIP?
E se o governo substituir algumas das inserções de propaganda da Petrobras (são milhares, em horário nobre) por mensagens educativas do manejo?
O fato é que este governo e seus técnicos entraram numa briga ideológica na mídia e abandonaram uma briga técnica no campo. No campo, nos anos 80 ensinava-se o produtor a não usar veneno. Na mídia, nos tempos atuais, o negócio é acusar o agronegócio por danos ao meio ambiente. Tudo para ganhar a cena na TV. Quanto ao veneno, lá no campo, as multinacionais podem despejar à vontade.





