UM DEDO DE PROSA
Ninguém celebrou, ninguém falou nada. O Dia da Escola (que deveria ser) comemorado esta semana, passou em branco.
Antigamente, na escolinha da zona rural (local onde muitas crianças cursavam até o 3º ano, antes se transferir para o Colégio maior, na cidade), todos os dias havia lição de cidadania, num tempo em que essa palavra não era apenas modismo. Cidadania, civismo, religiosidade.
A professora, figura veneranda, conversava com as crianças sobre as famílias. E pedia que lhe contassem sobre o plantio, a colheita e o gado. Levava folhetos educativos e falava de higiene e saúde.
Tempos diferentes. Professores se envolviam com a comunidade. E a gente do campo se preocupava com a professora a quem ofereciam muitos presentes, em geral mantimentos para a sua dispensa e para doar aos carentes da cidade.
A professora almoçava uma vez por semana na casa de algum aluno. O pai podia ser um sitiante pequeno, um arrendatário ou o mais rico dos fazendeiros da redondeza.
Professora almoçando na casa da gente! Que legal! Era motivo de festa. Dona Albertina Dallef, certa vez, ficou impressionada com o sabor da fartura: salada fresquinha do sereno da noite, plantas tenras, carne de porco e uma quantidade de sucos e frutas também fresquinhas. Se quisesse teria mandioca sequinha e ovos de galinha carijó.
Enquanto a professora almoçava, alguém se encarregava de lotar o jeep ou a charrete que a levariam até o asfalto onde tomaria o ônibus. E lotavam de queijos, ovos, doces de abóbora, cidra ou mamão. Ela via aquilo tudo e fazia tipo: ''Gente! Não precisava...''. Precisava sim, professora a gente prezava, admirava. Tinha que agradar.
E agora? Depois da carga acomodada no veículo, alguém tinha coragem de deixar a professora ir de ônibus? Claro que não. Entregava em domicílio na cidade.
Era o respeito. A professora e o padre disputavam a simpatia das famílias. Eram figuras de Deus, ambos praticavam o sacerdócio.
Hoje em dia, o professor não conhece o aluno e o aluno agride o professor. E ninguém reage porque faz parte do populismo governamental. A educação afundou.
E ''escolinha'' não é mais aquela Escolinha de madeira ou alvenaria, modesta porém sacrossanta, cheia de entusiasmo e rica de amor.
Não. Escolinha, hoje, é sinônimo de duas coisas bregas: aquela da TV, que é muito pobre, e a do Requião, que deve ser muito rica, porém vazia.
É... o tempo é mesmo implacável.
Mas cada um tem a escolinha que merece. Eu faço questão de citar o nome da minha: ''Escola Mista da Fazenda Santa Luzia'' - lição de moral, aulas de cidadania. Caminho suave, nome da cartilha de uma época.
H. Ramos Bezerra
A nossa prosa de hoje foi para injetar entusiasmo aos professores e autoridades do ensino. Para que despertem seus ideais, enfim para que pensem na sua missão, tão descaracterizada.





