Eu arreei meu cavalo quando ia escurecendo, fui roubar uma moreninha lá pras bandas do Rio Pequeno

Eu cheguei na casa dela, meia-noite mais ou menos, e ela tava esperando bem na hora que nóis tratemo...os seus cabelos brilhavam molhadinhos de sereno


A letra da música de raiz, dos anos 50/60, é a mais autêntica expressão de um hábito do Brasil caboclo - a coragem de roubar a moça, fugir e casar com ela. Não era bem um hábito, era uma transgressão aos bons costumes do interior religioso. Mas era também uma circunstância. O casal se apaixonava porém os pais, amorosos e ciumentos, sempre achavam que a filha era nova demais pra se entregar às mãos de um qualquer... um peão de calcanhar rachado, como se costumava dizer. Então o jeito era roubar a moça. O cavalo, bem encilhado, manga-larga marchador de passo macio, era o meio mais prático; melhor que o jipe porque cortava caminhos, pulando cercas de arame farpado, se preciso fosse. E era, às vezes. Afinal, a honra da família poderia custar alguns tiros de carabina. O cavalo, quando não um burrão ligeiro, era encorajador. De bota e espora, o jovem do campo se sentia mais forte.

Agora, preste a atenção. Falei que o caboclo roubava, ficava uns dias escondido na casa de um parente (dele) até a poeira baixar. Só que, depois, casava direitinho, de papel passado e perante Deus, em primeiro lugar.

Quanta diferença em comparação com os tempos modernos. Hoje em dia o mamífero coloca a guria na moto, fuma bosta de vaca (que lhe venderam como maconha), transa sem nenhum romantismo, engravida e não volta nem pra ver se o filho é feio e tem a cara do pai.

O que fizeram com os costumes desse País, dom Albano Cavallin? Em primeiro lugar, sua benção, por favor! Até sábado. E que Deus abençoe os casais que casaram fugido e até já comemoraram Bodas de Ouro.

H. Ramos Bezerra.

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