UM DEDO DE PROSA
Uma foto de um cavalo comendo restos de lixo doméstico num saco plástico. Magro, apresentava sinais de espancamento e feridas por todas as partes do corpo, deixadas por arreamento mal colocado. Outra foto: uma égua estirada no chão, depois de atropelada. Parecia prenha e a morte não foi instantânea, pelo jeito, indicando que houve sofrimento. Talvez horas de sofrimento. Em outro cenário triste, o cavalinho esquelético é chicoteado por não ter forças para puxar a carroça na rampa e num asfalto escorregadio. A cavalgadura - que não tira as nádegas do banco da carroça -, acha que, batendo, o cavalo adquire forças.
Esses pobres animais esquálidos, desnutridos, que talvez nunca tenham recebido uma dose de vermífugo, têm algo em comum: carregam o sina de pertencer a donos irresponsáveis e relaxados. Pergunta-se: esperar o quê de quem não cuida nem da ferramenta de trabalho. Animal é uma ferramenta valiosa e que demora para ficar pronta. Demora e custa caro para ser domado e ''ficar bom'' de sela ou arado, como dizem. Apesar disso, o dono parece ter raiva do animal. É o triste espetáculo da cavalgadura atacando o cavalo. O fato dessa gente - que merece todo apoio - levar uma vida difícil, não justifica o castigo imposto aos animais. (Esta crítica tem o cuidado de não generalizar, embora as exceções parecem poucas. Há, em bairros de Londrina, verdadeiros mestres na lida. Mas são poucos).
O indivíduo urbano não sabe lidar com animal. Alguns são mais chucros do que o próprio bicho. Dias atrás, numa cavalgada, tive o desprazer de ver casos de tortura. Cavalgadas são manifestações de culto à tradição, amizades. Às vezes têm carater beneficente. Parabéns! Mas não é preciso arrebentar o animal, ainda que ele lhe pertença. Ele não escolheu o dono.
H.Ramos Bezerra
A prosa de hoje também vale como puxão de orelhas às autoridades que não se incomodam com tantos animais largados à próprioa sorte pelas ruas da cidade.





