‘Es­se po­vo da ro­ça gos­ta da vi­da que le­va. Op­ta­ram por fi­car lon­ge de bu­zi­nas,
fu­ma­ça, ba­ru­lho e con­fu­são. Pro­du­zem o que co­me­mos e me­re­cem ­respeito’


Tá certo, o ano é 2010, o século é o 21 e o Brasil se tornou um país urbano, com a maioria de sua população vivendo nas cidades. Porém, praticamente todos nós, mesmo quem nasceu em solo de concreto como eu, tem um pezinho na roça. Quem nunca morou na zona rural tem os pais ou avós que moraram. Não é o seu caso?
Dessa forma, os nossos laços umbilicais com o campo nos fazem felizes quando temos a chance de amassar barro ou engolir poeira. Todo prosa, tive a oportunidade na última semana de visitar os distritos e patrimônios rurais de Londrina para uma reportagem para a FOLHA. E como é bom conversar com o povo desses lugares.
Olha só: no Patrimônio Taquaruna, lugar de 259 habitantes, fomos recebidos pelo seu Wander José de Almeida. Ele vive dos leitões que vende no Natal e na Páscoa e da mercearia que só abre à noite quando o povo já voltou do serviço em Londrina ou na roça. Deu entrevista, mas pediu que em troca entrássemos para um cafezinho. Junto serviu um bolo. E fez questão de que conhecêssemos a casa.
Dali fomos para Guaravera. No distrito, o problema maior é a falta de segurança. Papo vem, papo vai e nos contam de um fazendeiro que sofreu assalto violento há pouco tempo. Tocamos para lá. Confesso que não tinha muita esperança de ser recebido pelo homem. Afinal, ele ainda poderia estar amedrontado e arredio.
Que nada! Nos colocu para dentro na mesma hora, trazendo água gelada para espantar a nossa sede e narrando com desenvoltura sobre o dia em que foi surpreendido quando chegou à propriedade por três homens encapuzados e armados que o renderam junto do casal de caseiros. Levaram quatro armas e dois veículos, deixando-o trancado a noite toda. Ficou o medo, mas é preciso continuar trabalhando.
Nos outros lugares, recepção igualmente calorosa e muitos relatos de sensação de abandono. Porém, não encontramos uma só pessoa que relatasse vontade de deixar a zona rural para viver na zona urbana, mesmo com estradas em condições ruins e falta de segurança. A impressão que fica é que a minoria que hoje permanece nos distritos é privilegiada. ''Às vezes saio daqui para passar dez dias fora, mas não consigo ficar nem três!'', diz o açougueiro Sebastião Aurélio de Souza, do distrito da Warta.
Por aí, percebemos que esse povo da roça gosta da vida que leva. Optaram por permenecer longe de buzinas, fumaça, barulho e confusão. Produzem o que comemos e merecem respeito e um pouco mais de atenção do poder público, afinal, como disse um morador de Lerroville que se identificou como José. ''Também pagamos impostos. E votamos''.
Wilhan Santin é repórter da FOLHA

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