UM DEDO DE PROSA
Meu neto quis saber o que fazia aquele homem que seguia a passos largos com uma engenhoca quase entre as pernas, cuja ponta fincava no chão e puxava rápido. Gesticulava rápido e seguia, repetindo os trejeitos sem parar. Parecia incansável. Ia e voltava, em caminhada linear a uma distância de 50 a 60 metros.
Imaginei como aquilo mexia com a cabeça de uma criança de 8 anos. Um homem fazendo o plantio manual, de feijão ou milho. E a máquina era o que, no campo, chamávamos de matraca, pelo barulho característico que ela faz a cada abertura e fechamento do registro que joga as sementes no sulco.
Meu neto - que já sabe o que é uma semeadeira e até passeou horas na cabine de uma colheitadeira gigante - no entanto, nunca viu um plantio manual. Não daquela forma.
Agora quer saber mais sobre a matraquinha, ainda usada nas chácaras e em terrenos de topografia acidentada. Tenho receio de dizer que aquela engenhoca é coisa de antigamente. Que tecnologias vão avançando e alguns métodos e equpamentos são abandonados. É mais fácil você aposentar um trator de 30 anos, gastador, do que dispensar a matraca - porque eles têm funções específicas. O trator, velho ou novo, não substitui aquela maquinhina que faz fleco, fleco.
Pensando bem, quantas técnicas não foram recomendadas para os agricultores e, pouco tempo depois, caíram no desuso por não terem sentido? Nos anos 70 a 80 mandaram a gente construir biodigestores, inspirados num hábito chinês. Horroroso. E o kiri?. Aqui mesmo neste Paraná, recomendaram o kiri uma árvore cuja madeira teria boa aceitação no Japão; depois o rami, ceifador de braços. E a integração peixe com suínos, para o peixe aproveitar dejetos das granjas? O tempo foi corrigindo. Ainda bem.
Por tudo isso, meu neto tem todo direito de saber sobre o plantio manual via matraca. Velha e útil matraca. Esta ainda tem serventia. Pergunte ao chacareiro.
H.Ramos Bezerra
A prosa de hoje foi para lembrar das bur-radas que mandaram o homem do campo fazer, em nome de uma tecnologia da moda, do modismo.





