UM DEDO DE PROSA
Ela resistiu! A Paineira do Igapó 2, aquela que estava inclinada a cair apenas com o passar do tempo, suportou heroicamente ao vendaval demolidor, que deitou dezenas de eucaliptos gigantes. Lá está ela. Incólume.
Inclinada, parece reverenciar as águas turvas do maltratado lago, terno companheiro. Tem em comum a certeza da finitude não distante.
Ela resistiu! Com seus quase 20 metros de altura, tronco grosso aberto em forquilha. Folhas viçosas inseridas na parte aérea. Casca dura, seu envoltório rústico abriga uma diversidade de pequenos insetos da microfauna, colônias de bichinhos silvestres, que alimentam pássaros. Desaparecerão um dia.
Ela resistiu! Ninguém queria mesmo vê-la na horizontal, ainda que fosse para beijar o berço vermelho e cochichar à relva o quanto zombou da maldição das serras, das motosseras, dos machados e da poluição.
Ela resistiu! E continuará em pé, só de pirraça, a colecionar mais histórias de descompaixão, escritas pelos malfeitores da natureza.
Ela resistiu! Paineira com P maiúsculo. É árvore piramidal na pirambeira. E é pira simbólica que não quer apagar. Merece uma vida inteira!
Até sábado
H. Ramos
A prosa de hoje é uma homenagem àquela árvore fincada à margem do Igapó 2 que venceu a fúria do vento. Sabe-se lá se resistirá à fúria dos homens.





