UM DEDO DE PROSA
De repente me dou conta de que não vejo mais aquele grupo de pessoas sobre a carroceria do caminhão sacolejando pelos carreadores das fazendas de café ou algodão. Também não vejo mais os cafezais. E o algodão quem colhe são as máquinas lá em Mato Grosso. Aqui no Paraná só campos de soja, trigo e milho. E no lugar daquela turma cantarolando - que chegava para a colheita -, vejo comboios de camionetas e carros particulares, macios. E, em vez da entoada sertaneja, as pessoas agora chegam xingando, ameaçando...falam no celular com os poderosos lá em Brasília. Comida fria, então, imagina... A refeição agora é churrasco quente feito com o gado daí mesmo. Bem feito pra você fazendeiro, que não quis fazer política para evitar isso que está aí. Pior: não quis dar uma colocação pro filho do boia-fria.
Calma, calma, calma. Mas eu não sentei aqui, na beira da tuia, pra criticar a vida dos outros.
Quero falar do trabalhador volante dos anos 70 e 80, que vinha da periferia da cidade, sendo que o lugar dele tinha que ser aqui na fazenda. Aqueles sim eram do ramo. Foram expulso das terras por um tal êxodo rural (a história é longa e inclui o tal Estatuto do Trabalhador e ainda o Estatuto da Terra).
Molecote, eu, lá pelas 3 da tarde, levava uns bolos de fubá e algum reforço que a mãe fazia. Ela falava: avisa eis que saco vazio não para em pé. Lembro, como se fosse agora, de um baiano ligeiro, que puiu a camisa com suor. Aquele gostava de pão com torresmo.
O boia-fria era um forte. O heroísmo da resignação daquela gente começava cedo, no jejum da madrugada, no orvalho das 7 horas e ia até o anoitecer. As mulheres, chegando em casa, faziam a janta preparada com o que tinha. E os homens iam tomar uma pinguinha com conhaque porque ninguém era de ferro. De tão cansadas as crianças iam dormir de barriga vazia.
Resignação... peregrinação... poeira...estrada, trator, carroça e caminhão. Todos os dias de sol.
Engraçado, nunca vi - nem no dia de São Cristóvão - um padre abençoando um caminhão daqueles, cheio de gente de fé. E mulheres rezadeiras. Registro na história? Só aquelas enredadas nos textos jornalísticos da época.
Mas a história recente quer sacralizar a trajetória dos movimentos que chegam para saquear, tomar. Na marra! É o que vale hoje?
Até sábado,
H.Ramos Bezerra





