UM DEDO DE PROSA
Um homem de cabelos brancos, passando dos 60 anos, rosto avermelhado, face crestada pelo sol da luta diária, do frio e do calor; do vento e do tempo...
Algo lhe deixara emudecido. Não acreditava no que via...não queria ver. Também não tinha forças para reagir ao golpe do destino. Parecia imóvel na foto do jornal. Pelo jeito, se pudesse, aquele homem mudaria a escala original do calendário para voltar algumas horas atrás, alguns dias, meses ou, quem sabe, anos, muitos anos atrás. Assim não teria chegado, um dia, áquelas plagas para morar e sonhar. Queria mudar a própria história. Talvez melhor não ter nascido.
Mas não podia mudar nada.
Concluiu então que há momentos em que o indivíduo só é senhor da sua impotência perante os fatos.
E os infaustos.
Então precisava resignar-se e encarar a cena. O corpo inerte da esposa amada sob o trator. O trator da família, dizia a legenda da foto. Que ironia! Quanta ironia...trator da família.
Moldurando aquele quadro da triste tarde de quarta-feira, o verde das plantas, do capricho dos cuidados diários com a lavoura à beira da estrada. Nada disso, agora, lhe pode significar alguma coisa, sem a personagem que o ajudou a compor tudo aquilo. E que foi, ao mesmo tempo, companheira, construtora e inspiração.
O dedo de prosa de hoje não é prosa.
É luto. É desabafo. É o choro entremeado, é soluço. É a partilha da tristeza vivida pelo agricultor Yukio Kozuki. Porque o choro dele é o pior dos choros; é o choro do silêncio e da aceitação oriental. Choramos pelos filhos que trabalham no Japão...e pela condição de viver no Brasil, um País de todos, mas que as oportunidades estão do outro lado do mundo, bem longe da família, mesmo num momento como esses.
H. Ramos Bezerra





