UM DEDO DE PROSA
Antonhadão saiu porteira afora, ganhou o asfalto, imprimiu velocidade na C10 e logo viu que o estrago da tempestade não foi único. E não foi somente lá pelas bandas da Água do Cedrinho - onde ''mora e vive'', como costuma dizer - que a natureza reagiu. Digo reagiu porque vem sendo agredida tem muito tempo.
À noite, na conversa à beira da tulha, regada com pinguinha civilizada e anisete feito no jeito antigo, o homem deu de abismar-se diante do que viu num dia de andanças. Beijou a mulher e os filhos. Mais tarde, fez poesia, fez prosa... fez rimas, poemas e fantasia. Rescaldo de um dia de emoção e tristeza.
Antonhadão falava de uma linguagem que aprendera nesses dias turvos em que o mundo parecia acabar em água. Era a língua do vento pronunciada entre o arvoredo e o campo aberto das pastagens. Falava de trovões e raios. Ao mesmo tempo que somava nos dedos as pontes que rodaram, as paineiras rachadas ao meio, eucaliptos contorcidos, galpões destelhados. Descrevia este cenário sentado ao chão, num antigo terreirão de secar café...
Posava de trovador.
--- Não sei como esse matuto buscou inspiração na tristeza... geralmente é o contrário... é na alegria, não é?
É, dona Neninha não estava totalmente errada.
--- Os humanos - prossegue Antonhadão, como que sintonizado à comunicação do além - são capazes de emitir sons articulados. E dão significado aos seus sons, que transformam em palavras. Outros viventes também. O relinchar do cavalo amigo, o balido do cordeiro que chora e o grito do anum preto em dia ensolarado.
De repente ele para e comenta: Engraçado, apesar dessa capacidade de emitir sons, ninguém prá avisar desse temporal. Nem ao menos a coruja agourenta ou o calo do pé esquerdo, que dói prenunciando mudança no tempo. Ninguém foi capaz de sintonizar o som que estava chegando...e olhe que o vento soprou forte por aqui.
Até sábado!
H. Ramos Bezerra
(*) A prosa de hoje foi uma prece ao sofrimento resignado do campo diante da reação da natureza, cutucada com vara curta.





