UM DEDO DE PROSA
Em tempo de pulgas atrás da orelha (a gente tem motivos de sobra para ter muitas), não reclame do grilo. Nada de estigmatizar o grilo emprestando o nome dele para designar coisas negativas. Nada de associar o bichinho a algo pejorativo, como incômodo ou amolação. Grilo não incomoda. E chega de chamar de grilagem aquele título de propriedade falso. Ah, sugiro mais: que grileiro deixe de ser o cara que faz rolo na venda de terras em Mato Grosso. Grileiro, para mim - a partir de hoje -, será alguém de bom coração que se dedique a cuidar dos grilos.
Por que tanto zelo com o inseto?
Porque o grilo, seu moço, tem dignidade. E chamar de grilo, simplesmente, é muito pouco para um inseto capaz de atitudes heróicas como esse que eu conheci. Aliás, tenhamos um pouco de formalidade, por favor. O correto é Ortóptero Grilloidea e não reduzi-lo apenas a grilo. Por que grilo tem nome e endereço. Certo?
Dias atrás, ao tirar o sapato, um grilo quase morto saiu abraçado à meia. Tentei salvá-lo mas era tarde. O grilo, desculpe, o Ortóptero, não suportou o sufoco entre os dedos e a ponta do sapato. Diagnóstico: asfixia.
Fora do sapato, manteve a pose, postura ereta, bem aprumado, cabeça erguida. Parecia vivo. Mas as antenas esticadas já buscavam a comunicação com o além.
Os Ortópteros (grilos, para os íntimos) são elegantes, fiquei convencido disso.
Estou pensando em embalsamar esse inseto companheiro de caminhada fatal. Fatal, mas caminhada. Moribundo, mas companheiro. Farei algo para livrá-lo da decomposição implacável e das formigas indignas que assediam seu cadáver prostrado na soleira da minha choça.
Até sábado
H. Ramos Bezerra
A prosa de hoje foi um pito, uma bronca, àqueles que destróem a cobertura seca do chão. Em tempo de chuvas, como agora, a erosão e a enxurrada levam a riqueza da terra por água abaixo até matar os rios. Está acontecendo no Paraná. E ninguém se importa com isso.





