O caipira da cidade se aproxima do homem do campo e vai dizendo com sinceridade:
  – Saudade da vida no meio rural. Sorte demais é você morar no sítio e ter uma cidade logo aí, bem perto, para alcançar as facilidades que a vida urbana oferece. O sossego da natureza e os serviços da cidade. Qualidade de vida deve ser isso! Concorda?
  – Depende. De qual vida no campo o amigo está falando?, questiona o homem do campo.
  – Ah sim. A vida no campo que dá saudade na gente é aquela dos anos 60 para depois. Antes, não. Antes não havia boas estradas nem energia elétrica. Geladeira só a querosene e a luz era de lampião...lampião que usava camisinha, lembra? Camisinha, hoje, é pra outras coisas.
  E continuou: – Lá na roça a gente aprendeu a dividir as coisas, emprestar as ferramentas, dar uma beirinha no jeep quando se ia pra cidade... Não se negava ajuda. E a cortesia das comidas era todo sábado quando morria um porco, um novilho ou uma vaca do descarte. Todas as famílias da redondeza recebiam um pedaço de costela.
  Sabe como? A mãe da gente sempre recomendava: se vai visitar um parente ou um amigo, não vá de mãos abanando. Era um costume dos imigrantes que as colônias todas e os brasileiros acabaram adotando. Não chegar de mãos abanando significa levar algo, em geral uma carninha. Era uma troca, estava na cultura da gente simples espalhada pelo interior, em tempo de Brasil caboclo.
  De repente, o urbano resolve deixar o rurícola falar, provocando:
  – Não é mais assim, né?
  – Não. Não é, responde o produtor. A modernidade acabou com os bons costumes. Hoje está acontecendo o contrário. O sujeito não chega de mãos abanando... chega lotado mas é na casa dele. Hoje, quando pega uma estrada, o cara passa na propriedade dos outros e leva o que vê pela frente. Leva sem pedir, é claro. Mas o cara que faz isso não é do ramo, é alguém que está andando por aí - minimiza. E você você só vai saber quando procurar por um martelo, um serrote ou um machado. Procura e não acha. Foi aquele martelo que não deixou seu vizinho chegar (na casa dele) de mãos abanando.
  E finalizou:
  – Tá bom para você? Então agora manda a sua saudade para outro lugar. Ou sinta saudade de outras coisas. Dos passarinhos que você matou de montão.
H.Ramos Bezerra
● A conversa de hoje quis mostrar que os os costumes na zona rural mudaram. Dos bons tempos mesmo só saudade.
O assunto continua.

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