UM DEDO DE PROSA
Trator traçado e muita grana
Intervalo entre colheita de inverno e plantio de verão, em 1997. Tempo seco, terra rachada. Em Dia de Campo sobre recuperação de solos degradados, em Cambará, no Norte Pioneiro, os técnicos recomendam aração profunda para depois corrigir e fertilizar o solo. Era preciso investimento em máquinas pesadas, pousio e outras técnicas. Nada que estivesse ao alcance de pequenos produtores.
As nossas famílias estão na região há mais de 50 anos. Nossos avós vieram do Nordeste amontoados em Pau-de-arara. Nossos pais e, agora, nossos filhos, todos nós, levamos uma vida dura para manter as propriedades rentáveis. Os dois tratores que temos são médios, com mais de 10 anos de uso. Trator de baixa potência só serve para o preparo da terra...
Quem fala é um dos produtores do bairro, muito interessado em fazer o chão voltar a produzir, como nos anos 60 até 80. Mas não se entusiasma com o futuro.
Enquanto lamenta a falta de apoio para tocar os seus pouco mais de 50 alqueires, diz que a TV mostrou os sem-terra invadindo lavoura dos outros com trator traçado. Traçado e novinho. Aqui, se a gente atrasar mais de três prestações num financiamento o banco vem e toma.
O agricultor, sotaque nordestino, chefe de família três gerações depois da chega dos avós , não tem nada contra os sem-terra. Só não sei porque lá na cidade vocês chamam eles de trabaiadô e arranca gargalhas dos companheiros.
Ele também disse que viu e fez pouco quando a vice-governadora do Paraná inté abençoou a exportação de erva-mate por uma cooperativa de sem-terra lá do Sul. A dona vice nunca viu o trabalho que dá para plantar, colher e vendê o feijão que é comido por aqui no Brasil, por brasileiros. E cadê o reconhecimento?
Melhor é largar tudo e entrar debaixo da lona também, resumia o mais velho de um grupo oito de trabalhadores, com grau de parentesco. Eles até adotariam as práticas de recuperação do solo indicada pelos técnicos, desde que houvesse um financiamento do governo.
Moral da história
Se naquele tempo os pequenos e médios produtores, sentiam falta de um apoio igual ao dado aos assentados, imagine hoje, ao saberem que o movimento (de invasores) recebe milhões de reais do governo, como mostrou a reportagem da revista Veja, sem prestar contas de um tostão. Pequeno produtor, arrendatário, meeiro ou porcenteiro, eles nunca foram contra os assentados; apenas acham que mereciam tratamento semelhante, mesmo não sendo políticos e militantes como os outros.
H. Ramos Bezerra
A conversa de hoje foi inspirada no seguinte paradoxo: enquanto o pequeno produtor não tem o apoio necessário para continuar no campo, produzindo, os movimentos políticos e ideológicos de sem-terras recebem fortunas. Mas o que eles produzem mesmo?





