UM DEDO DE PROSA
Desapropriação branca
Será que o governo, também por decreto, consegue determinar que o clima não atrapalhe a produção e as pragas não ataquem as lavouras?
Num sábado você tem um dedo de prosa que diverte e dá alegria. Noutro sábado, você tem uma prosa que entristece todos os dedos das mãos, que ataca os nervos, acelera o coração, sobe à cabeça, estressa, dá desgosto. É o assunto de hoje.
A forma como o governo trata os agricultores - produtores de alimentos - incomoda até quem vive na cidade. O sr. Tochitane Mitsi, gerente de restaurante, envia uma carta em que diz:
O governo, por decreto, quer que aumente a produtividade em 30%. Se o produtor não atingir a meta corre o risco de ser desapropriado e suas terras viram assentamentos. Será que o governo, também por decreto, consegue determinar que o clima não atrapalhe a produção e as pragas não ataquem as lavouras?
O mesmo leitor questiona, entre outras coisas, se os assentamentos estão sendo produtivos.
Não é só a produtividade por decreto que ameaça pequenos e médios proprietários. A situação vivida por José Lauri Scholz, de Toledo, retrata bem a realidade que preocupa os paranaenses. Conforme entrevista ao jornal da Faep, ele corre risco de ser multado, mesmo preservando as áreas de nascentes e protegendo com mata ciliar o rio que corta a propriedade.
A lei ambiental, como é hoje, não permite que Scholz contabilize a área de mata ciliar nos 20% de Reserva Legal (mata nativa) exigidos de toda propriedade. Scholz teria que retirar da produção 25 dos 92 hectares que cultiva, quase um terço. Não tem como sobreviver na propriedade assim. O governo esquece que, para plantar, tenho que adquirir insumos, corrigir o solo, pagar financiamento nos bancos e maquinário. Scholz também ficou indignado com o discurso do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que, segundo ele, tentou jogar os produtores uns contra os outros na questão ambiental. Estão nos expulsando da terra, desabafa.
H. Ramos Bezerra
A prosa de hoje foi inspirada no depoimento do agricultor e leitor da FOLHA José Lauri Scholz, de Toledo, e na carta do leitor Tochitane Mitsi, de Londrina.
Até sábado!





