UM DEDO DE PROSA
Diante de certas situações é melhor assumir algo que você não deve do que tentar desmentir e desfazer falsas evidências.
Foi difícil para Antonhadão reconquistar a patroa, uma quase beata, de educação rígida. Depois de meses emburrada, negando fogo e relaxando até na higiene pessoal só de pirraça, ela resolve desabafar. De volta da missa, os dois sozinhos no jeep, dona Amélia tascou: Tu podia me trair com a cabocla mais corcunda da redondeza. Agora, com uma vaca? Aí já foi longe de mais. Eu que nunca desconfiei de ti.
Conversa vai, conversa vem, discussão áspera, até que Amélia tenta compor duas cenas que não conseguia apagar da memória.
Na primeira, recorda ter visto o marido apalpando as intimidades de Mimosa, vaca mansinha e boa de leite. Inocente. Acima de tudo, inocente aquela pobre vaca. Só que o cuidado se dá lá no meio do pasto, longe do estábulo, lugar ideal para o manejo do gado. A vaca tinha as pernas enlaçadas com embira, aquela fibra de bananeira que nem o artesanato indígena usa mais para fazer tranças ou arranjos. Ora! Que usasse uma corda, então - se o motivo era mesmo conter a vaca para arrancar-lhe os carrapatos e os bernes que a parasitavam pelas ancas e partes indefesas.
Mas o azar de Antonhadão não fica por aí.
Semanas depois, a cena era mais contundente. Dona Amélia vai ao estábulo bem cedinho e flagra o marido lavando o traseiro da vaca (normalmente só se lava o úbere). Não estava usando a ordenhadeira mecânica, e o balde para a coleta manual do leite não foi visto por perto. O acontecido tem ingrediente ainda pior. Na mais radical das coincidências, Antonhadão, depois de higienizar a vaca, teve que fazer xixi. Já houvera lavado as mãos quando a esposa aparece. Mas - adivinhem: ele esqueceu a braguilha aberta.
Então imaginem a cabeça da mulher, vendo aquele quadro: vaca com traseiro no jeito, limpinho, rabo amarrado... e marido de zíper aberto. O que se passava pelo imaginário dela poderia ser tudo, menos o leitinho das crianças.
Agora o quadro real: a ordenhadeira mecânica estava quebrada, o balde ausente só seria usado quando o úbere estivesse sequinho, para não respingar no leite. O rabo é esticado para não ficar chicoteando o rosto do leiteiro. E Mimosa estava amarrada porque, como as outras vacas em lactação, fica incomodada com as mãos dos homens nos seus tetos. Afinal, o sugador mecânico é mais confortável.
Ah e Antonhadão, um homem santo, seria incapaz de sacanagens.
Mesmo assim, aceitou, resignado, as acusações e vendeu Mimosa como descarte. Destino de vaca descartada é o açougue.
Até sábado.
H. Ramos Bezerra
A prosa de hoje, enviada por um leitor que garante ser fato acontecido, é uma homenagem ao pessoal que levanta cedo e se esforça para, depois, entregar o leite às indústrias em troca de uma mixaria. Ele também vive atacado por parasitas.





