Olhando as fotos da fazenda do avô, amareladas pelo tempo, o que chama mais a atenção de Marquinho são aquelas ''gravatas de madeira'', que fazem os animais caminharem sempre de cabeça baixa, humilhados.

O garoto pergunta sobre aquelas forquilhas presas ao pescoço das vacas.

- Que coisa mais besta, pai. Precisava disso? Até os bezerrinhos tinham que andar com esse troço esfolando até fazer ferida?

- É a canga, meu filho. Mas só era colocada nas vacas varadeiras, aquelas que pulavam a cerca.

- Varadeiras?!

- É sim, Marquinho. Vaca que pula a cerca e vai comer no pasto do vizinho, ou estragar uma roça de milho, por exemplo. Prejuízo na certa.

- Mas se vai comer não é porque está com forme? Não seria mais fácil dá capim pra elas?

- Tá certo, Marquinho. Mas não é só por causa da comida, sabe?

- Então por que não faziam uma cercona grande de arame bem esticado?

Sem dar respostas convincentes, o pai de Marquinho, nascido na fazenda mas de formação totalmente urbana, acaba concordando.

- Esse negócio de canga era coisa de gente antiga, que não se atinava muito para o sofrimento dos animais. Mas eles mesmos levavam uma vida muito rude, meu filho, cheia de dificuldades.

Marquinhos não quer se entregar ao mesmo conformismo do pai e dispara:

- Mesmo assim fica difícil entender, não é meu pai?

A esta altura da conversa, como que rompendo o túnel do tempo, mas sem romper os caprichos da vida, o pai resolve acordar o filho para a reflexão. É quando conceitua.

- Pensando bem, meu filho, também o mundo de hoje está cheio de cangas pesadas como carro de boi que a gente tem que puxar. São as cangas da falta de liberdade para você passear sem medo; são cangas que não deixam você ir à escola sozinho; tem a canga dos impostos que leva o lucro da nossa padaria; cangas que impedem que você prospere, mesmo trabalhando honestamente. Lá mesmo na fazenda, a canga hoje é colocada no pescoço do dono, que fica sujeito a invasões e agressões e um monte de exigências.

Marquinho se assusta:

- Então isto não seria um castigo para quem judiava tanto das vacas, meu pai? Uma vingança?

- Olha filho, se é vingança eu não sei. Agora, castigo eu tenho certeza que é sim!

H. Ramos Bezerra
A prosa de hoje é uma reflexão sobre as muitas cangas e amarras que colocam nos pescoços dos cidadãos urbanos e do campo, com direito a trabalhar e entregar o fruto a um patrão enérgico e insaciável chamado governo.

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