Herculano tinha todos os defeitos do mundo - inclusive o de dar em cima da morena Lita, mulher de Zé Paraíba -, mas era sério nos negócios e muito trabalhador. Trabalhar e fazer contas era com ele. Com ele e com Antonhadão, outro caboclo do bem. Acreditem vocês que Antonhadão dava duro a semana inteira e chegava no domingo com uma lista de pedidos para fazer castração de porcos. Era o melhor dos capadores da região.

  Já o Herculano preferia passar os domingos arrumando cercas. Consertava a parte dele e dos vizinhos, sem dividir despesa, sem nada. Tudo saia da sua algibeira: compra do arame, os grampos, tudo.

  E foi numa dessas, entre uma arame esticado e outro, que Herculano quase morre de susto, além de arrebentar o cabo do machado num palanquinho de maçaranduba, que ele mesmo acabara de fincar.

  Dez horas da manhã, com o estômago nas costas de tanta fome, encharcado de suor, o sapatão apertando os calos, mãos sangrando do contato com arame farpado...

  Herculano não via a hora de largar tudo. Seria muita sorte Zé Paraíba, marido de Talita, não passar por aí com aquela peixeira brilhando meio fora da bainha, como tinha costume de exibir na venda, na bocha e na gafieiras.
  Herculano se fixava tanto no serviço que não levantava a cabeça, mesmo desconfiado.

  De repente um vulto. Primeiro a sombra que parecia mover-se sobre ele, depois o vulto visto com canto dos olhos. Ao dar uma passo para traz Herculano ainda bate o braço em algo, que poderia ser o rival. Sem ver o que era aquilo, Herculano aplica um golpe com toda força. Pronto: machado para um lado...cabo para o outro.

  Podia ser o Zé Paraíba, cortado ao meio. Não era. O medo fez Herculano ficar esperto. Nessa altura, as calças já estavam molhadas e não só de suor. Quanto ao Paraíba, que era meio vida-torta, soube-se, depois, que abandonou tudo e sumiu.

  Três anos depois, entre os arames da mesma cerca, uma voz e um novo susto de perder o fôlego.

  – ‘‘ÓIA O ARMOÇO!’’.

  O grito era de Lita, morena lisa, de pés no chão e pernas roliças. Num braço levava o embornal, com os comidas e a mistura, no outro a criança.

  – Sou eu... bobão...cagão! Teu filho quis te ver. Aproveitei prá trazer a bóia. Só que hoje é domingo, vamo prá casa.

H. RAMOS BEZERRA


A prosa de hoje foi inspirada num fato real. É um caso acontecido. Quanto a peixeira de Zé Paraíba deve continuar refletindo, afinal nunca foi usada...não no couro do Herculano pelo menos.

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